Moradores voltaram para casa, por falta de lugar para morar, mesmo sem a recomendação da Prefeitura. Mas o medo continua na vizinhança.

Sete meses após as chuvas de 24 de janeiro, que provocaram tragédias em toda cidade, o que continua reinando é a insegurança.

Moradores relatam medo dos saques que começaram após o desabamento, medo de morrer, medo que tudo se repita se nada for feito antes das próxima temporada de chuvas. Vários medos

O saldo daquela noite trágica foi a morte do jovem Yuri Andrade, muitos lamentos e pouca ação por parte do poder público.

Marcos Paulo Rezende é um dos moradores da rua, que deixou a casa com a família, mas voltou por não ter outro local adequado para ficar.

“Foi um caos”, lembra. Segundo Marcos, os moradores foram retirados de casa pela Prefeitura, mas a residência acabou saqueada por bandidos. “Roubaram todas as torneiras da casa, roubaram minha bicicleta”. Por causa disso, ele e a família voltaram para o local. “A gente tem medo, quando chove ficamos preocupados. Mas voltar foi a melhor solução”, conta.

“Eu trabalho de noite, aqui perto. No dia eu nem queria ir, estava preocupado com a chuva. De noite eu vi as notícias da alagamentos e comecei a receber mensagem dos meus amigos perguntando se minha casa estava bem. Eu nem entendi. Eu moro no alto, o rio passa lá embaixo. Não tem como a água do rio chegar até aqui. Quando meu irmão disse que o barranco tinha desabado e o rapaz, meu amigo, tinha morrido, eu vim correndo. Eu vim a pé correndo, do meu serviço até aqui. Quando eu cheguei a rua toda estava interditada; com faixa cercando tudo. A prefeitura tinha impedindo o acesso. Estava cheio de gente aqui. Fiquei doido. Só queria notícia da minha mãe e da minha família. Meu irmão ficou parado no quintal olhando onde tinha desabado, a chuva continuava e um policial teve que gritar para ele sair de lá. Estava todo mundo em choque mesmo”.

Marcos Paulo Rezende, morador

Luciana Marcela, é outra moradora que também voltou por causa do medo de saques. Ela e a família moram no local há mais de 20 anos. Nunca tiveram medo do barranco desabar, mas agora convivem diariamente com esse temor.

Segundo ela, a Defesa Civil aparece no local de vez em quando, mas nenhuma ação efetiva foi tomada. “Logo após o desabamento, foram realizadas algumas reuniões, inclusive com o Secretário de Obras, mas depois veio a pandemia e nada mais aconteceu”.

Luciana ficou três dias fora de casa e voltou. Ela nunca recebeu auxílio moradia e a Prefeitura avaliou que a casa dela está estável. “Deixaram eu voltar, mas disseram que, se chover muito, eu precisarei sair.”, conta.

Abandono

Nem todos voltaram. Alguns moradores abandonaram as casas e agora essas residências se tornaram outro problema para a vizinhança. “Essa casa da esquina foi deixada, pois tem risco de cair. Hoje ela serve só como esconderijo para bandidos e abrigo pra animais. Está dando é dor de cabeça”, lamenta.

Segundo Luciana, a prefeitura prometeu “obras emergenciais na região”. Mas a emergência passou e os moradores ficaram esperando. A rua de baixo, atingida pelo desabamento, está fechada até hoje.

É a rua marginal do viaduto do Barreiro, que faz a ligação entre a Avenida Tito Fulgêncio e a Avenida Teresa Cristina. Nesta rua mora Denise Moreira. Ela é vizinha da residência onde morreu o jovem Yuri, atingido pelo barranco que desceu sobre a casa.

Ela lembra da noite dizendo “saímos e voltamos. Temos medo do barranco cair, mas também temos medo que roubem ou depredem a nossa casa”. Segundo ela, nunca tinha tido medo do barranco desabar e o maior problema hoje é a falta de segurança e os saques.

A segurança é a pauta principal dos moradores. Mas o risco de mais desmoronamentos na próxima temporada de chuvas ainda existe. Quem passa pelo viaduto na cabeceira da Avenida Tito Fulgêncio se assusta com o que vê. As casas estão penduradas em lages ou sustentadas por pilastras no barranco desabado.

O mato toma conta do barro que desceu sobre os terrenos, mas não esconde as marcas da tragédia. Um dos cômodos da casa atingida pela lama permanece lá, com suas paredes pela metade e a uma janela que permite ver que o barro tomou conta de seu interior. Foi nessa casa que Yuri morreu.

Local onde Yuri foi atingido pelo barranco

Os pais do jovem tiveram que abandonar a moradia. Mas ainda voltam ao local para trabalhar no comércio que a família mantém no primeiro andar da construção e para evitar saques no que restou da residência.

Sobre a rua interditada para o trânsito até hoje, moradores e comerciantes não reclamam. Segundo eles, o medo de que um aumento no trânsito provoque mais desabamentos é maior do que qualquer incômodo que possam estar passando por causa disso.

A reportagem do Coluna1 entrou em contato com a Prefeitura de Contagem para posicionamentos, mas a prefeitura não se manifestou sobre a situação.