Pandemia

A importância dos agentes comunitários de saúde no cuidado com a saúde mental durante a pandemia de Covid-19

De repente, sem aviso prévio, o que era alegria virou dor; as certezas desapareceram no ar e tudo o que restou foi medo. Essa é a realidade de muita gente e levou a uma crise de ansiedade e de casos de depressão relacionados à pandemia. Fez aumentar também a importância da prestação de saúde na ponta, pelos agentes comunitários, acolhimento de porta em porta.

Na opinião de Dona Ângela, foi essa dura realidade da pandemia, esse contexto e essas incertezas que levaram seu marido – João Batista, de 68 anos – a um infarto, no início de maio, no auge da “quarentena”.

Contudo, apesar de tantas palavras tristes em tão poucas linhas, esta não é uma reportagem sobre tristeza. É sobre alegria. É sobre o encontro da Dona Ângela com a senhora Amélia, Agente Comunitária de Saúde. É um caso entre muitos e que mostra a importância da ajuda desses profissionais a todas as pessoas que tiveram que lidar sozinhas com a depressão e a angústia durante a pandemia.

Amélia de Lourdes Magalhães é ACS na equipe do NASF – Núcleo Ampliado de Saúde da Família do posto de saúde do Vale do Jatobá, periferia de Belo Horizonte. Ângela Maria Leão dos Reis é uma moradora do bairro. As duas já tinham se encontrado antes, mas dessa vez foi diferente.

Ângela Maria, moradora

Naquele dia, Ângela conta que só chorava. Seu marido já tinha falecido e ela tentava superar. Foi nesse momento que Amélia bateu na porta de sua casa para fazer o acompanhamento de rotina. Mas foi diferente. Ao invés das respostas protocolares, Ângela chorou. O que a agente de saúde fez foi apenas oferecer o atendimento necessário ao momento. Ela ouviu.

Amélia percebeu que Ângela precisava conversar e fez esse acolhimento. Parece simples, mas, na opinião de Ângela, aquela conversa foi o primeiro passo para começar a se reerguer do baque que a vida lhe deu.

Em Belo Horizonte, durante a pandemia, não houve suspensão do atendimento à saúde mental. Mas houve algumas restrições e mudanças. Na cidade, foi realizado inclusive atendimento remoto e online. Casos mais graves relacionados à saúde mental continuaram sendo encaminhados à rede pública de atendimento.

Porém, pelo isolamento, pacientes com menor gravidade acabaram recebendo acolhimento e acompanhamento na ponta, muitas vezes em domícilio, por médicos, enfermeiros e agentes das equipes de saúde da família. Essas equipes de saúde sempre desempenharam o papel de monitoramento de pacientes, inclusive em questões de saúde mental. Mas na pandemia a importância foi ampliada.

No caso de Ângela, o que foi feito por Amélia é a “escuta ativa”, recomendada pelo Conselho Federal de Psicologia para abordagens de saúde mental na pandemia de Covid-19. Ela usou de empatia e fez a diferença na vida de uma paciente. “Me senti à vontade”, concluiu Ângela.

Amélia, a agente de saúde, conta que conversar faz parte da rotina. “Sempre fiz, mas agora aumentou. As pessoas, idosos em especial, têm carência afetiva”, conta a agente comunitária.

“A pandemia tirou muita gente da lista. Foi um período muito tenso. Tivemos que lidar com o medo dos outros; Alguns casos, a gente encaminha para o atendimento psicológico, outros nós tentamos ajudar dentro do possível”, lembra.

O acolhimento com escuta ativa é o procedimento recomendado em cartilha feita pelo IASC e divulgada pelo Conselho Federal de Psicologia. “Ouvir é a parte mais importante na comunicação de apoio. Em vez de oferecer conselhos de imediato, permita que as pessoas falem ao seu próprio ritmo e ouça-as atentamente”, recomendam no manual.

Daquela disponibilidade de ouvir, surgiu uma confiança que ajudou a paciente a superar uma fase e caminhar rumo ao reestabelecimento. Dona Ângela foi encaminhada ao atendimento especializa. Mas foi muito além disso, surgiu uma amizade que contribuiu e deu um bom exemplo de como lidar durante a pandemia.

Ângela diz hoje que começa a se levantar. E Amélia? Bom, Amélia diz que isso é o que “dá ânimo para trabalhar; que faz valer a pena”.

Vários medos e muitas angústias de quem trabalha na ponta

Segundo Amélia, agente comunitária de saúde, alguns profissionais tiveram que lidar com a desconfiança da população ou com a resistência de pessoas que, mesmo precisando de atendimento, resistiam em procurar a rede de saúde.

Mas muitas vezes eles tiveram que lidar também com o próprio medo; e tinham razão em temer.

Em Belo Horizonte, 410 profissionais de saúde testaram positivo para Covid; desses, 84 eram agentes comunitários de saúde; esse número só fica atrás da quantidade de técnicos em enfermagem contaminados, com 136 casos.

Os pacientes com Covid-19 que estão assintomáticos ou com sintomas leves ficam em isolamento dentro de casa. Para esses casos os agentes de saúde e o NASF fazem parte importante do monitoramento.

“No começo tínhamos algum medo. Nós não sabíamos muito sobre a doença. Tínhamos medo de nos contaminar e de que a doença se espalhasse. Tínhamos medo de levar a doença para nossas casas. Muitas vezes encontrávamos pessoas, que estavam na lista de casos confirmados, transitando fora de casa, saindo do isolamento, e tínhamos que lidar com isso também”, conta.

Em Belo Horizonte, a regional do Barreiro, onde Ângela e Amélia moram, foi uma das que apresentou maior número de casos. Até o dia 29 de setembro, foram 553 casos e 138 óbitos confirmados.

Tratar de quem trata os outros

Quando o paciente chega no rede de atendimento ele é recebido por uma equipe de profissionais que dão o suporte necessário. A psicóloga Kênia Cassimiro Matoso faz parte desse atendimento inicial no NASF.

Ela conta que durante a pandemia viu aumentar muito a angústia entre os pacientes. “As pessoas apresentavam muita ansiedade; medo excessivo”, medo que às vezes paralisa e faz a pessoa necessitar de auxílio.

Mas além de lidar com o medo dos pacientes, ela viu crescer também a angústia dos próprios profissionais da rede. Por isso, alguns programas que já existiam e outros novos foram desenvolvidos e “turbinados” para auxiliar os profissionais a cuidar da própria saúde.

O programa “Cuidando de Quem Cuida” ajudou os profissionais a passar pelo período mais crítico da crise. É um programa de humanização e acolhimento dos próprios profissionais de saúde. Com relaxamento e atenção para receber os trabalhadores do setor.

A psicóloga ainda participou do programa “Bem Acolher”. Ela conta que foram realizadas lives voltadas especificamente para esses profissionais, que tiveram participação de 30 a 40 pessoas, com atendimento e orientação. Tudo para preparar e auxiliar aos profissionais que estavam na frente do atendimento à população.

Números da saúde mental na pandemia

Pesquisa do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), em parceria com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), realizada em abril, mostrou que 40% dos mais de 44 mil entrevistados se sentiram tristes ou deprimidos no início da quarentena. Um outro levantamento, desta vez realizado pela UFRJ, indicou um aumento de 90% nos casos de depressão só no primeiro mês da quarentena.

A situação chamou a atenção da OMS, que chegou a fazer um alerta sobre a necessidade de investir em um sistema de assistência à saúde mental. “O isolamento social, o medo de contágio e a perda de membros da família são agravados pelo sofrimento causado pela perda de renda e, muitas vezes, de emprego”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).

autor: Hermano Chiodi

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s