Análise

A curiosa tendência de autossabotagem da esquerda brasileira na ilusão da hegemonia

Acho que deve ser praga de Robespierre, líder da revolução francesa. Por uma razão ou outra, a esquerda mundial e especialmente a esquerda brasileira se mostram incapazes de se unir, mesmo que estrategicamente. A repercussão do anúncio de que Haddad será o candidato de Lula nas eleições de 2022 é só mais um capítulo dessa história.

Ajoelhado, com a lâmina da revolução sobre sua cabeça prestes a rolar na guilhotina, Robespierre deve ter praguejado contra a esquerda mundial, que ainda engatinhava entre os cacos de uma Paris destruída: vocês que se dizem revolucionários, que lutam pela liberdade, vocês serão sempre presos aos seus medos e ambições; vocês que pregam a fraternidade, jamais terão a confiança de seu irmão; vocês que creem na igualdade, viveram sempre divididos; serão sempre inimigos íntimos de vocês mesmos.

Na tumba, Rousseau deve se revirar tentando explicar seu conceito de vontade geral, mas é tarde. Está enraizado no pensamento das esquerdas: a verdade é única e não podem haver duas opiniões diferentes sobre um mesmo fato. Se duas pessoas honradas propõe dois rumos diferentes para a nação, a explicação é simples: uma das duas está mentindo e merece a guilhotina.

Quando Lula disse que apoiará Haddad, Guilherme Boulos, candidato do PSOL paulista, arrepiou. Disse que primeiro é necessário definir o “projeto”; ou seja, primeiro é necessário definir a verdade única e inquestionável, o caminho de consenso. Vontade geral de Rousseau.

Lula é um senhor de 75 anos, que passou por um câncer, tem uma condenação mal resolvida e ainda tem outros processos engatilhados. Não se pode apostar todas as fichas em um candidato que depende da boa vontade do STF e que a qualquer momento pode ser novamente alvejado pelo TRF4. Lula sabe disso e por isso escolheu Haddad. Se a esquerda quer ganhar a eleição em 2022 e afastar opções autoritárias como Bolsonaro, precisa sim apresentar o candidato do Lula e construir essa alternativa. A decisão petista é acertada.

Porém, do ponto de vista de Guilherme Boulos, o ideal é que ele fosse o candidato escolhido por Lula ou, na pior das hipóteses, que o PT atrasasse sua escolha.

A esperança é que os petistas não consigam construir uma alternativa e o PSOL consiga crescer na esquerda nacional. Se tornar um novo PT. Boulos não foi capaz de perceber que em São Paulo, terra de Haddad, quem sairá vencedor é ele. Mas que Lula pode tirar votos de Bolsonaro em locais onde o PSOL ainda nem sonhou em chegar. O PSOL tem que continuar crescendo, pelo bem da esquerda e do país. Mas não deve diminuir o PT. Da mesma forma que o PT não deve atrapalhar o caminho do PSOL.

E o pensamento limitado ao nicho não é exclusividade de Boulos, muito pelo contrário. Nas eleições de 2020, muita liderança boa do PT se esforçou para desconstruir e enfraquecer Guilherme Boulos em São Paulo; alguns chegaram realmente a ficar felizes com a derrota do PSOL na prefeitura de São Paulo.

A mesma coisa em relação a Ciro Gomes. Ele é candidato do PDT, um partido de centro esquerda, trabalhista. Poderia buscar votos para a esquerda entre uma classe média que ainda se arrepia com o rótulo de “comunista”, mas que não se vê beneficiada pelo capitalismo. Ciro é permanentemente alvejado por parte da esquerda. Foi a própria esquerda que apelidou o cearense de “coronelzinho” e dia a dia descontrói sua imagem.

É necessário lembrar que Ciro foi um dos ministros mais leais de Lula; seu irmão foi um dos poucos ministros de Dilma que teve a coragem de brigar contra o “centrão”, na tribuna do congresso, em defesa da ex-presidente. Não custa lembrar também que, nesse momento, ele é um dos principais cotados para ser vice de Haddad. Talvez por isso ele, Ciro Gomes, ainda não tenha dado nenhuma declaração agressiva contra a escolha de Lula. Pois Ciro é outro, que mesmo não sendo esquerda raiz, cresce fazendo ataques gratuitos aos líderes da própria esquerda.

O que dizer então de Marina Silva. Na época em que ela era a ministra de meio ambiente de Lula, a opinião vigente na esquerda sobre ela era a de admiração. Viúva de Chico Mendes. Símbolo da luta das esquerdas ambientalistas; legítima representante dos povos explorados da floresta.

Bastou ela entrar na rota da presidência da República para ser bombardeada de maneira rude e altamente destrutiva. E não foi pela direita. Quem destruiu Marina foi a própria esquerda, na famigerada disputa presidencial de 2014. Nas eleições de 2014, o PT, principal partido da esquerda brasileira, mostrou que preferia devolver o país à direita do que passar a vez para outra liderança das esquerdas. Foi o PT que escolheu ir para a disputa contra Aécio ao invés de ir contra Marina.

Marina por sua vez, em 2018, preferiu ficar calada e ver Bolsonaro presidente do que fazer um acordo com o petismo de Fernando Haddad. Antes de Marina tivemos Heloisa Helena, destruída pela esquerda, Cristóvão Buarque, laureado e depois renegado pela esquerda, Brizolla e tantos outros casos de biografias da esquerda grotescamente desconstruídas pela própria esquerda. Coisas da política brasileira.

A situação de dificuldade em que a esquerda se encontra no país hoje é fruto, em parte, de sua própria prática. No mundo, exemplos como Marx contra Bakunin, Comunistas contra Anarquistas ou Stalin contra Trotski, já mostravam as dificuldades ideológica da vanguarda socialista. Mas no Brasil, é gritante.

Em Minas Gerais, Fernando Pimentel preferiu entregar a prefeitura de Belo Horizonte à uma aliança com Aécio Neves e Márcio Lacerda do que deixar outros grupos do PT assumirem. Em Betim, em Contagem, em Ipatinga e várias outras cidades de Minas Gerais, que já foram administradas pela esquerda, a luta entre duas lideranças colocou em risco a continuidade dos projetos progressistas. No Estado hoje, o PT tenta se reconstruir. Em Belo Horizonte, minguou bruscamente.

Hoje é necessário reconhecer que o PT é o partido de oposição com maior quantidade de votos. Mas também é necessário reconhecer que existe uma resistência muito grande ao PT e às ideias do partido. Por isso, quanto mais candidatos fortes de esquerda houver, melhor será.

Ninguém de bom senso da esquerda seria capaz hoje de apostar que a esquerda irá vencer em primeiro turno. Isso é quase impossível nesse momento. Em 2022 haverá segundo turno para presidente. Quanto mais candidaturas fortes existirem, melhor.

Destruir candidaturas de esquerda ainda no ninho é uma autossabotagem que não costuma ser perdoada. Nunca devemos subjulgar a inteligência e a capacidade de observação do povo. O povo vê, o povo sabe. As acusações que fizerem agora, uns contra os outros, poderão e serão lembradas em 2022.

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