Economia

Governo culpa dólar pelo aumento da gasolina, no mesmo dia em que abre mão do controle sobre política cambial

No dia em que os brasileiros precisam engolir mais um aumento no preço da gasolina, o presidente Jair Bolsonaro colocou culpa no Dólar alto. Enquanto isso, na Câmara dos Deputados, o governo defendia a autonomia do Banco Central, órgão responsável por intervir na política cambial.

O preço do petróleo atingiu seu auge em 2018, com R$80 o barril, mas de lá para cá caiu e vem oscilando entre R$60 e R$40. Porém, apenas em 2020 foram 29% de aumento no valor do dólar. Esse aumento é o que tem pesado no preço da gasolina aos consumidores.

O governo Jair Bolsonaro dolarizou o preço dos combustíveis ao adotar a “paridade internacional”. Na prática significa que o preço dos combustíveis no país passou a variar de acordo com o preço internacional, geralmente estabelecido em dólar. Por isso, uma alta expressiva no dólar provoca também uma alta dos combustíveis.

Em discurso hoje, o presidente Bolsonaro falou sobre o assunto. Ele negou que irá intervir no preço dos combustíveis e disse “o ideal, como tenho conversado com o prezado Roberto Campos Neto (presidente do Banco Central) é o dólar baixar. Mas baixar como? Com o parlamento colaborando na votação de projetos”, disse.

Contudo, a afirmação do presidente considera apenas um aspecto da variação do dólar.

A confiança dos agentes de mercado no governo é um dos fatores de influência no preço do dólar, mas não é o único e nem o principal na determinante do câmbio.

A declaração do presidente desconsidera a existência da “Política Cambial” brasileira.

Essa política cambial são as normas definidas pelo Banco Central para intervir no mercado financeiro e fazer o valor do dólar subir ou descer, de acordo com as necessidades de cada momento.

A “Política Cambial” permite que o governo faça grandes negociações, comprando ou vendendo dólar, para regular seu preço.

Se aprovada a autonomia plena do Banco Central, tal como proposto o governo federal perderia sua capacidade de intervir no câmbio.

De acordo com o próprio Banco Central, “a condução da política cambial afeta diretamente a vida do cidadão, mesmo que não tenha transações com exterior. A taxa de câmbio reflete nos preços dos produtos que o país importa e exporta, influenciando assim os demais preços da economia”.

É uma decisão do Banco Central, mas que até hoje segue as diretrizes estabelecidas pelo Governo Federal.

Em momentos como este, destacam-se os riscos de autonomia plena nas ações do Banco Central. Uma divergência entre banco central e governo coloca em risco a própria execução das políticas de governo.

O Banco Central controla as reservas cambiais do país, passar este controle exclusivamente para o Banco Central significa submeter a condução econômica do país aos interesses do mercado financeiro, que quase nunca coincidem com o interesse dos consumidores, trabalhadores e contribuintes.

Em entrevista ao site Brasil de Fato, o sociólogo e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Jessé Souza, disse que a aprovação do projeto pode aprofundar o maior mecanismo de desvio de verba pública existente hoje no país, que entrega nossas riquezas às instituições financeiras.

 “O governo Bolsonaro é um governo onde essa política do saque financeiro é o ponto principal. Estamos vendo isso acontecer numa velocidade inigualável. O poder da elite, a influência dos banqueiros, se dá de modo velado, na surdina, como estamos vendo com essa votação”, avalia o sociólogo.

Souza considera que a informação sobre os impactos dessa medida não chegam na população. “Não há pluralidade, diálogo. Projetos como esse refletem interesses pessoais, de elite, e só aumentam a desigualdade no país”, disse

DIFERENÇAS ENTRE BRASIL E ARGENTINA

A Argentina também está enfrentando problemas relacionados a inflação. No caso deles os itens que têm pesado mais são os alimentos, de acordo com reportagens do JornalClarin

A justificativa do aumento lá é igual à justificativa do aumento aqui: o aumento do dólar. No caso deles, o governo acusa os produtores de estarem priorizando as exportações e deixando faltar alimentos para o mercado interno.

Contudo, no país vizinho, o presidente Alberto Fernandez convocou representantes dos empresários e ameaçou aumentar taxação e restrições a exportação de produtos essenciais como forma de garantir o abastecimento da população e o controle de preços.

O excesso de intervenção no setor produtivo também pode ser prejudicial. Mas é fundamental ter instrumentos para regular o mercado, se assim for necessário.

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