Mulheres que criam, esse é o foco do Projeto “Colcha de Retalhos”. O projeto surgiu de um documentário e ajuda mulheres empreendedoras periféricas. Hoje são mais de 20 mulheres envolvidas, que produzem e prestam os mais diferentes serviços. No “Colcha de Retalhos” elas recebem capacitação, apoio e espaço para empoderamento. O projeto é aberto às empreendedoras que quiserem se juntar à empreitada e é construído coletivamente, todos os dias.

O “Colcha de Retalhos” é um projeto para mulheres empreendedoras, que criam coisas, ideias, pessoas ou sonhos. Tanto faz. O importante é fazer e acontecer. E o objetivo é fortalecer as mulheres que fazem e acontecem nas periferias, todos os dias, mas que às vezes precisam de uma forcinha para fazer ainda mais e melhor.

As criadoras do projeto, Dalila Pires e Mônica Veiga, abraçaram a causa quase por acaso. Produtoras de audiovisual, elas começaram a fazer um documentário para atender a um edital com tema “mulheres”. Diante de tantas histórias, elas resolveram transformar o documentário em projeto, e daí surgiu o “Colcha de Retalhos”.

“Quando nós começamos o documentário vieram muitas histórias; histórias muito absurdas, mas muito reais; nesse caminho nós fomos vendo o quanto aquele espaço foi importante para elas; um local de empoderamento, um local de voz. Elas traziam histórias absurdas, mas no final tinham um sorriso no rosto, porque elas superaram aquelas adversidades”, diz Dalila Pires.

Hoje são mais de 20 mulheres envolvidas. O coletivo não tem ligação com movimentos políticos organizados ou empresas. E tira seu sustento de um bazar, montado com doações, e de vaquinhas online CLIQUE AQUI. É uma empreitada de determinação, das duas organizadoras e de todas as mulheres envolvidas, que recebem mentoria, treinamento e apoio digital para fortalecer seus negócios.

EMPODERAMENTO QUE FAZ O CORAÇÃO VIBRAR

“Empoderar é dar às mulheres a oportunidade de ter a voz que eu não tive. Tudo que eu não pude falar, hoje eu me esforço para permitir a elas de ter espaço”, disse Dalila Pires.

As mulheres da periferia querem respeito e querem também o reconhecimento do que elas fazem. Querem que a sociedade reconheça o talento que elas têm. Têm anseio para o reconhecimento pessoal do trabalho.

Atrás de histórias que faziam o “coração vibrar”, que tinham significado para muitas mulheres, Dalila e Mônica perceberam que tinham mais do que relatos; tinham projetos profissionais que podiam empoderar as mulheres e que só precisavam de um apoio.

É o caso de Amélia Marinho, moradora da Vila São Paulo e produz doces e, nesta ápoca de Páscoa, Ovos de Chocolate de todo tipo para todo gosto CLIQUE E VEJA. Ela que se diz “retalho nessa colcha” é uma as entusiastas do projeto e tem suas redes sociais repletas de produtos produzidos pelas empreendedoras periféricas do projeto.

“Eu sempre estive envolvida em projetos sociais, em voluntariado. Eu participava do grupo dos moradores de área de risco do anel rodoviário e foi através desse grupo que eu cheguei até ao Colcha de Retalhos. Nós recebemos três cursos e foi a partir daí que eu voltei a fazer bolos, brigadeiros. Eu voltei a ter confiança em mim mesma. No coletivo são mulheres empoderadas e periféricas iguais a mim e achei o incentivo necessário”, diz Amélia.

É o caso também da Bia, da Luciana, da Érica da Fernanda e da Helena, que são protagonistas da websérie feita pelo coletivo (CLIQUE AQUI PARA VER) para contar histórias de mulheres empreendedoras. Mas é a história de muitas e que significam muito mais do que trabalho.

“Quando juntou o tema mulheres com a minha bagagem pessoal, aí veio o empreendedorismo de forma muito natural. A gente entende que o empreendedorismo feminino é também uma forma de libertação, pois uma vez que a mulher tem a sua própria renda ela tem a chance de se libertar dessas situações que às vezes ela passa dentro de casa e que ninguém faz nada”, diz Dalila.

“Em novembro de 2019 nosso filme documentário estreou. Mas nós percebemos que dava para fazer mais e dar esse espaço de voz para as mulheres. Nós somos empreendedoras e vivemos na periferia, nós vemos as dificuldades vivida no dia a dia e foi natural fazer essa transição”, disse Mônica Veiga.

O projeto atende mulheres de todos os lugares, não tem exigência de lugar. Nascido na pandemia para apoiar mulheres empreendedoras que enfrentaram as dificuldades extras criadas por este momento, o projeto traz a essência do digital. Organiza, mobiliza e treina as mulheres através de grupos de whatsapp e utiliza as redes sociais para divulgar o trabalho das empreendedoras.

TRABALHO DE HOMEM E DE MULHER

No dia a dia, dizem, é possível perceber que a sociedade ainda vê trabalho de homens e mulheres. Mas isso não existe mais. Hoje a mulher pode ser o que quiser, mas ainda enfrenta dificuldades para isso. “Nós mulheres não queremos tomar o lugar de ninguém. Queremos apenas exercer nossa potência sem sermos o tempo todo massacradas”, disse Dalila.

“Pesquisas internacionais mostram quem mulheres empreendedoras têm mais dificuldades de conseguir crédito. A justificativa é que o tipo de empreendimento feminino gera um retorno menos do que aquele excutado por homens. Geralmente as mulheres ficam em ramos alimentícios, ou de beleza e acabam pagando juros maior. Mas isso tem que ser discutido. Até alguns anos atrás, para pegar empréstimo a mulher precisava da assinatura do marido, o CPF que representava a mulher era o do esposo, por isso até hoje na cultura bancária de crédito para mulher ainda é muito atrasada e essa competição coloca as mulheres em pé de desigualdade”, conta Mônica.

Essas dificuldades, com crédito e com a resistência social, são importantes, mas não são as únicas.

É clichê, mas é real. A mulher enfrenta a jornada múltipla e dificuldades próprias do universo feminino, como a gravides e os cuidados com a família, que muitas vezes fracionam o tempo da mulher para gerir seus empreendimentos.

“Durante a pandemia, houve uma redução da eficiência da trabalhadora e aumento da eficiência do trabalhador. Porque a mulher quando está em casa cuida da casa, enquanto muitos homens quanto estão dentro de casa, eles apenas estão dentro de casa”, afirma Mônica.

“Existe uma coisa aí que as mulheres precisam refletir, pensar se estão pegando carga demais. Lembrar que lavar louça da pia é função de todo mundo, e não só das mulheres”, conta.

DIFICULDADES TECNOLÓGICAS

A pandemia evidenciou que a tecnologia é uma outra grande dificuldade dos empreendedores brasileiros, mas sobretudo das mulheres. “No nosso grupo, as mulheres mostram grande dificuldades de lidar com a tecnologia”, disse Dalila.

O coletivo montou cursos de qualificação e prepararam mulheres para utilizar os celulares para fotografar e divulgar seus produtos e seus propósitos. Foram três módulos para preparar as mulheres que, durante a pandemia, ou se preparavam para o uso da tecnologia ou teriam que encerrar seus negócios.

Os módulos do curso estão disponíveis online e podem ser consultados por qualquer pessoa.

FUTUROS E PERSPECTIVAS

“Sou grata a todas as mulheres que vieram antes de nós e acredito que o futuro é promissor. Sou grata a minha avó, que passou por muitos desafios e chegou até a prostituição, mas é graças a ela que hoje eu estou aqui, podendo empoderar mulheres. O futuro é promissor, desde que a gente continue mantendo a chama acessa do propósito de nos amarmos, nos respeitarmos e nos impormos como mulheres”, diz Dalila.

“Cada vez que uma mulher der a mão à outra para somar, cada vez que um homem estabelecer uma relação de respeito, nós caminharemos juntos para uma sociedade mais justa, que é aonde nós queremos chegar”, diz Mônica Veiga.

De novo, é clichê, mas é verdade: “lugar de mulher é aonde ela quiser”. E as mulheres que quiserem ocupar este lugar de empreendedoras, podem buscar o apoio do “Colcha de Retalhos”.

AJUDE A AJUDAR

E quem quiser apoiar o projeto pode buscar as redes sociais do @ColchadeRetalhos e o bazar que busca recursos para o coletivo. Elas também aceitam doações de livros e objetos para o bazar. Entre em contato e dê sua contribuição.