Ontem Bolsonaro mostrou fraqueza. Para seu estilo de fazer política, mostrar fraqueza é um perigo. Bolsonaro é cria da nova estratégia política que utiliza a internet como espaço de mobilização da raiva popular para ganhar eleições. Neste modelo, não se vence com propostas, com representação de classes ou grupos; no modelo adotado pelo presidente, as eleições são vencidas tornando-se representante da maior quantidade de raiva possível.

O problema para Bolsonaro é que, nesse modelo, demonstrar medo é fatal. Ele se cercou de grupos raivosos, dispostos a agredir e destruir tudo. Esses grupos respeitam Bolsonaro, pois identificam nele o maior de todos os raivosos, o indestrutível. Não são grupos liderados pelo carisma, são grupos liderados pela força. Para esses grupos, o líder fraco é inaceitável, pois um líder fraco enfraquece o grupo todo.

É como se Bolsonaro começasse a sangrar no meio de um monte de tubarões famintos. Tudo que eles querem é sangue, não importa de quem seja. Animal ferido vira caça. Os grupos que deram base a Bolsonaro farejam sangue a quilômetros. Se Bolsonaro começar a sangrar no meio deles, se tornará o prato principal do almoço de amanhã.

Vejam o que houve com Sérgio Moro. Num dia ele era o herói bolsonarista. Ontem ele foi jantado no STF sem nenhuma reação de Bolsonaro e seus soldados. Basta sangrar e mostrar fraqueza que você vira o alvo da vez.

Maquiavel, pensador político muito útil para os dias atuais, em que a política se torna cada vez mais bruta e indecorosa, diz em seu livro que é melhor ser temido do que amado. Para Maquiavel, o excesso de piedade é uma das falhas que podem levar à derrota do governante. Para Bolsonaro isso também era uma verdade.

O governo Bolsonaro sempre observou esta regra à risca. No dia 24 de março do ano passado a população brasileira tinha aderido a um quase lockdown generalizado. Assustados com as imagens que vinha da Itália e da Espanha, os brasileiro tinha aceitado que era necessário parar a economia durante alguns dias. Mas existia, e ainda existe, muito medo em relação ao desemprego e muita raiva dos comerciantes que se viram obrigados a fechar seus negócios.

Bolsonaro, como cria de seu tempo e resultado de suas estratégias, sabia que não foi eleito pela prudência ou seriedade. Bolsonaro foi eleito pelo medo e pela raiva, logo, não poderia tomar outra atitude senão ficar ao lado da raiva.

Na noite infeliz de 24 de março de 2020, Bolsonaro foi à televisão e fez o mais dispensável discurso desta pandemia. Foi nessa noite triste que ele jogou brasileiros contra brasileiros, politizou a pandemia; politizou remédios como cloroquina e ivermectina, que poderiam ser úteis, mas se tornaram peça de campanha; politizou a cura através da vacina; enfim, politizou a vida e a morte.

Naquele discurso, há um ano atrás, Bolsonaro disse que “algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, como proibição de transporte, fechamento de comércio e confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine”, disse ele. Ali, naquele momento, nossa tragédia nacional se agravou.

Foi nesse discurso também que ele disse que tinha histórico de atleta e que não sentiria nada, que o Covid era uma gripezinha e chamou a cobertura da imprensa de “histeria”.

Foi naquela infeliz noite de 24 de março de 2020 que Bolsonaro mobilizou sua turba e colocou o Brasil no caminho das 300 mil mortes e rumo à liderança da catástrofe mundial. Hoje o Brasil é exemplo, como disse o presidente, exemplo do que não deve ser feito.

Em março do ano passado, as pessoas ouviram o chamado do presidente. No dia seguinte, as medidas restritivas adotadas em cidades de todo o Brasil começaram a cair por terra. Qualquer um que se colocasse a favor da restrição foi chamado de “covarde” ou acusado de defender fechamento “porque está com a vida ganha”. A medicina e a ciência se tornaram políticas.

Ontem, contudo, Bolsonaro mudou o tom. Um ano depois daquela fatídica noite de 24 de março o presidente Bolsonaro aceitou a gravidade da pandemia, enalteceu a vacina como salvação e não falou nem uma vez sequer em curas milagrosas fora da ciência.

Os grupos de apoio a Bolsonaro nas redes sociais estão silenciados. Os produtores de conteúdo dessas redes devem estar readequando os memes, os vídeos e posts. O trabalho deles agora será convencer que Bolsonaro nunca mudou, que ele sempre defendeu a vacina e nunca subestimou a doença. É provável que hoje a noite, posts neste sentido comecem a circular.

A razão para Bolsonaro mudar é simples. A população está com mais medo de morrer de Covid do que de ficar desempregada. Bolsonaro, como eu disse lá atrás, sempre fica do lado do medo. Logo, adotou o discurso da vacinação. Hoe ele tem medo do vírus. Ficar em casa e usar máscaras não é mais coisa de

Maquiavel também explica essa mudança do presidente. Segundo Maquiavel, o governante deve ser dotado da sabedoria do Leão para espantar lobos e da sabedoria da raposa para se proteger de armadilhas. Por isso, diz Maquiavel, “não pode e não deve um príncipe prudente manter a palavra empenhada quando tal observância se voltar contra ele e hajam desaparecido as razões que a motivaram.

Maquiavel completa dizendo que essa habilidade de mudar de opinião é a habilidade da raposa, mas ele diz que “é necessário saber disfarçar bem essa habilidade e ser grande simulador e dissimulador. E são tão simples os homens e tanto obedecem às necessidades presentes que aquele que engana sempre encontrará alguém que se deixe enganar”.

O problema é que Bolsonaro chegou a presidência como líder de um exército. E todo líder de exército tem a obrigação de não trair seus soldados. Bolsonaro traiu. Fez seus apoiadores se exporem a todos os ridículos possíveis. Agora, sem maiores explicações, o presidente simplesmente muda sua opinião.

Sempre haverá aqueles que se deixam enganar. É fato, como disse Maquiavel. Mas há erros que as pessoas não perdoam. Já que a base teórica aqui é Maquiavel, vamos buscar no escritor italiano a razão do risco que corre Bolsonaro. Segundo Maquiavel, o homem perdoa mais facilmente aquele que matou seu pai, do que aquele que tirou seus bens ou sua honra.

Se esta premissa for realidade, os tubarões que já perceberam a fragilidade do presidente podem estar prestes a atacar. Milhares de brasileiros perderam pais e mães como resultado da estratégia pífia do governo para combater a pandemia. Ainda que todos sejam capazes de esquecer isso, vários desses perderam também seus bens e recursos. O brasileiro está órfão e ainda mais pobre.

Mas se não bastassem a orfandade e a pobreza, o discurso de ontem atingiu em cheio a honra de muitos defensores que se sentiram feitos de bobos pelo presidente. Prejudicar pais e mães, fazer perder dinheiro e ter a honra atingida estão na raiz do fracasso de qualquer governante. Por isso Bolsonaro, abra o olho, os tubarões já sentiram o cheiro de sangue.