O DataFolha divulgou nesta semana uma pesquisa que fez muita gente dizer que a possibilidade de uma “Terceira Via” acabou. Não é verdade.

A única coisa que a pesquisa mostrou é que o PT, pelo menos em nível nacional, continua dono dos votos da esquerda. Mas mostra também que Bolsonaro está diminuindo de tamanho e pode dar lugar a um terceiro candidato viável.

Lula se aproxima dos 41% das intenções de voto. Mesmo sendo um patamar alto, ainda é menor do que o PT chegou nas eleições de 2006 (com 48%), em 2010 (com 46%) e em 2014 (com 41%). O fato de Lula estar com esse percentual de votos não é, propriamente, nenhuma surpresa. É, de fato, algo previsível.

Tão previsível que Ciro Gomes já tem, há algum tempo, mirado suas críticas ao PT. A chance de Ciro crescer é se mostrar como antipetista. Disputar votos na esquerda contra Lula é perda de tempo para Ciro. Ele tem que disputar os votos dos contrários ao PT, por isso as críticas ao PT. Ele está certo, não há nada de desleal nisso; é apenas estratégia.

Os candidatos da direita raiz, por assim dizer, somam 18%, mas são votos espalhados em 5 candidatos (Sérgio Moro, João Doria, Luciano Huck, Mandetta e Amoedo). Além desses 18% ainda somam-se mais 6% de Ciro Gomes.

Isso coloca Lula com 41%, Bolsonaro com 23% e os candidatos que não concordam nem com Lula nem com Bolsonaro somam 24%. O problema para a terceira via não é Lula, é o diálogo entre eles e o problema de Lula é que ele precisa da terceira via para vencer.

Mesmo nas eleições em que o PT teve resultados excepcionais, ele nunca teve votos suficientes para vencer em primeiro turno. É preciso uma terceira via democrática (inclusive para propiciar a eleição de um parlamento menos bolsonarista).

A direita acusa os líderes da esquerda de não conversarem nem entre eles mesmos. Mas quando a direita é colocada na situação de dialogar entre si, enfrenta as mesmas dificuldades. Enquanto ninguém abrir mão de ser o salvador da pátria, a terceira via da direita continuará frágil.

MAIS UMA ELEIÇÃO ENTRE OS FAVORÁVEIS E OS CONTRÁRIOS AO PT

A grande questão que deve estar tirando o sono da equipe de marketing do Bolsonaro é que, sendo dono de 23% e com Lula na dianteira, beirando uma vitória no primeiro turno, Bolsonaro perde o protagonismo do discurso.

Com a situação do jeito que está, a motivação de votos será a mesma de 2018: será uma escolha entre ser contra ou a favor do PT.

Isso significa que é o PT quem vai escolher o candidato que irá disputar o segundo turno. Calma, explicamos: o candidato que irá assumir o segundo lugar será aquele que o PT escolher como antagonista no debate, sobretudo nas redes sociais.

Cabe ao PT e aos militantes petistas nas redes sociais compreenderem que quem escolhe adversário é o próprio PT.

Nesse momento, o objetivo do PT e de todos os políticos democráticos do país tem que ser eliminar a sustentação política de Bolsonaro. Por isso, se o PT quer acabar com o bolsonarismo precisa parar de falar de Bolsonaro.

Os petistas podem não ter percebido isso ainda, mas Bolsonaro já percebeu.

Sempre que alguma coisa sai dos planos – seja a descoberta de Queiroz, seja a mansão de R$6 milhões do filho do presidente ou uma CPI soprando no cangote – sempre que algo sai do controle o presidente dá um jeito de fazer uma manifestação maluca sobre ditadura, homossexualismo ou racismo.

A intenção de Bolsonaro não é atiçar sua base. A intenção de Bolsonaro é fazer a base petista se movimentar. Sempre que um petista vai para as redes sociais chamar Bolsonaro de maluco, torna o presidente mais forte no posto de “antipetista mor”.

É isso que ele quer. Para vencer eleição Bolsonaro precisa encarnar o antipetismo. Os petistas tem que tomar cuidado para não fazer isso, de novo, em 2022.

Não. Não estamos dizendo que Bolsonaro é cria do PT. Bolsonaro é fruto de uma intensa campanha de desvalorização da atividade política e ridicularização do bom senso, que inclui programas de TV como Pânico e CQC e chega até aos corredores do Ministério Público. Mas, em termos eleitorais, a incapacidade dos militantes da esquerda em resistir às provocações ajudou um pouco a transformar Bolsonaro em mito da idiotice.

Pelo lado da direita, o objetivo também tem que ser eliminar a ameaça autoritária de Bolsonaro. Para isso, eles também têm que mirar o PT. A direita democrática precisa dar o próximo passo e fazer a síntese das propostas de esquerda e de bolsonaristas.

O problema é que a direita tem perdido oportunidades uma atrás da outra.

Por exemplo, no último mês houve um massacre em Santa Catarina e um massacre policial no Rio de Janeiro. A esquerda naturalmente mobilizou-se contra o absurdo que foi a chacina policial no Rio de Janeiro. O Bolsonarismo partiu logo para a ofensiva dizendo que “era tudo bandido”. Os dois lados deram pouca ênfase, mostrando relativa insensibilidade, à chacina de Santa Catarina.

Era o momento da direita um pouco mais consciente apresentar um meio termo. Na questão do Rio de Janeiro era a hora de um líder da direita progressista intervir e tomar a frente do discurso, exigindo rigor contra os bandidos, mas defendendo a existência da polícia. A maior parte da população pensa é desta forma.

Os líderes da direita poderiam fazer uma crítica aos abusos policiais e defender uma estratégia policial de inteligência. Mas não fizeram. Se calaram e acabaram sendo indiferentes. Quem quer apresentar candidato à presidente não pode ser indiferente num caso dessa proporção.

A maior parte da população detesta bandido e acha a polícia importante; mas também não quer policial por aí matando inocentes. Esse viés deveria ser ocupado pela direita. Mas não foi.

Os líderes da direita poderiam ter ido, por exemplo, até Santa Catarina, um dos Estados brasileiros onde o bolsonarismo é mais forte, para mostrar compaixão com as vítimas – coisa que Bolsonaro não fez, diga-se de passagem.

Eles poderiam fazer um ato conjunto na cidade onde houve o massacre, com as presenças das principais lideranças da direita. Mas não fizeram. Abriram mão de serem protagonistas.

Lula estava em Brasília chamando apoios para seu projeto político; Bolsonaro estava criando discursos malucos contra a China; e os líderes da direita, onde estavam? Assistindo a ação dos outros e tomando espumantes na Avenida Paulista?

A terceira via pode existir? Pode. Existe voto disponível para isso. Mas quem quer ser protagonista precisa agir como protagonista. Petistas e Bolsonaristas têm feito isso e por isso têm suas posições garantidas e um mínimo de voto já estabelecido.

Mas e a direita democrática? Vai ficar apenas assistindo? Surge inclusive uma dúvida razoável: a terceira via é possível dentro da direita democrática. Mas será que de fato existe direita democrática no Brasil? Se não existir, é uma boa hora para criarem.