Análise

Deus é brasileiro e não dá asas à cobra. Sorte do povo brasileiro, azar de Bolsonaro

Os generais e chefes das forças armadas do Brasil mostraram que não têm coragem de impedir as loucuras de Bolsonaro. Isso ficou claro com a recusa do comandante do exército, general Paulo Sérgio, em punir o General Pazuello por suas participações em atividade política partidária.

Se os generais não têm coragem de aplicar a lei contra um subordinado, nunca terão peito para impedir um autogolpe do presidente para criar uma ditadura bolsonarista no Brasil.

A justiça segue sem credibilidade; o parlamento segue o vento; os mililitares não demonstram coragem. E o presidente e seus apoiadores já mostraram que têm a ambição golpista. Dessa forma, só Deus impede um golpe no Brasil.

Deus é brasileiro e não dá asas à cobra. Se Bolsonaro tivesse competência para governar, seu sonho de ditadura já tinha levantado voo e se tornado realidade no país. Mas, graças à Deus, ele não tem.

A forma desastrada e incompetente com que o governo federal agiu na pandemia fez com que as vacinas chegassem tarde para milhares de brasileiros que perderam a vida para a Covid. Essa mesma incompetência fez milhares de empregos desaparecerem e a economia segue em desalinho.

Hoje Bolsonaro não dá um golpe na democracia brasileira, porque não tem apoio popular. Graças à Deus, Bolsonaro não tem competência para voar. Se tivesse um pouco mais de competência, um golpe estaria instalado. Se dependesse da coragem dos militares para enfrentar o presidente e defender a constituição, um golpe estaria instalado.

Aliás, nossos militares de alta patente só demonstram coragem atualmente quando é para criticar adversários políticos ou exigir privilégios do governo. Detalhe, militar nem sequer deveria ter adversário político, porque militar não pode fazer política, no Brasil nem em nenhum outro país moderno do mundo.

A falta de coragem tem sido uma constante nos militares governistas. Um deles, o general Luiz Eduardo Ramos, que também é ministro, chegou ao cúmulo de admitir que não teve nem coragem de contar para Bolsonaro que tomou vacina contra Covid! Em reunião ele disse que tomou vacina escondido e salientou: não fui o único!

Bons tempos em que as forças armadas significavam algo realmente importante para o país. Hoje resumem-se a um grupo armado que age para defender o próprio interesse.

A HISTÓRIA DAS FORÇAS ARMADAS NO BRASIL É UMA SEQUÊNCIA DE GOLPES

As forças armadas do Brasil são golpistas. Isso é um fato desde a proclamação da república. Mas pelo menos davam golpes com justificativas, digamos, mais nobres.

Aliás, a história, essa infeliz condenada a não esquecer os fatos, mostra que além de golpista as forças armadas também tendem a ser traiçoeiras.

No golpe que levou à proclamação da República, em 1889, a liderança coube aos Marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Os dois traíram a confiança do Imperador descaradamente, tiraram D.Pedro II do poder e colocaram as oligarquias no lugar.

Deodoro era amigo pessoal do imperador e Chefe Militar no Rio Grande do Sul, um dos postos de maior confiança do Império; Floriano por sua vez era o encarregado de proteger a sede do governo imperial, mas negou-se a resistir e dar ordem de prisão à Deodoro e seu grupelho de revoltosos. Em outras palavras, a República começou com uma traição das forças armadas.

Certo que os dois justificaram a ação como se fosse o avanço do Brasil à modernidade da República. Mas certo também que, no fundo, os dois marechais serviram como instrumento para garantir privilégios aos militares e o poder da oligarquia rural ressentida com o fim da escravidão.

As forças armadas que deram o golpe contra o Império se uniram à Getúlio Vargas para dar um golpe militar e derrubar a oligarquia; oligarquia que eles tinham protegido em 1889. Traíram aqueles que antes tinham apoiado.

Mesmas forças armadas que se juntaram aos EUA na Guerra Fria e organizaram um golpe militar para derrubar Getúlio Vargas em 1954. Só não conseguiram porque Getúlio se suicidou e adiou os planos por um tempo.

Alguns militares tentaram continuar o golpe em 1955. Mas, por sorte, naquele momento o Brasil tinha o Marechal Henrique Lott no comando do exército. Aliás, os incidentes de 1955, são muito semelhantes aos de hoje em dia.

Em 1955, um coronel fez um discurso golpista em público; dizia que Juscelino Kubistchek, vencedor das eleições, não poderia assumir pois tinha recebido apoio dos comunistas, liderados por Luís Carlos Prestes.

Marechal Lott, que era o Ministro da Guerra, defendeu que o coronel deveria ser punido por manifestação político partidária, contrária à constituição. Ele encaminhou a punição ao seu subordinado. Coisa que os militares de hoje deveriam ter feito, mas não fizeram.

Na opinião de Lott, JK venceu a eleição e a constituição garantia o direito de JK assumir a presidência.

Toda uma articulação política foi feita para que a punição não fosse aplicada ao Coronel golpista. Lott, então, pediu afastamento do cargo.

Porém, quando ficou claro que havia um golpe encaminhado contra o resultado das eleições, Lott organizou um grupo e deu um golpe contra o governo golpista. Isso mesmo: um golpe contra os golpistas… a democracia no Brasil é linda!

Marechal Lott, apoiado por outros militares, tomou quarteis no Rio de Janeiro, que era a capital do país. O marechal e seu grupo colocaram o presidente interino pra correr.

Carlos Luz era adversário de Juscelino e assumiu o poder na transição do golpe. Protegido por militares golpistas, Carlos Luz entrou em um navio de guerra e fugiu rumo à São Paulo.

Os quarteis tomados por Lott dispararam tiros em direção ao navio onde Carlos Luz estava. O navio se afastou da costa.

Lott encaminhou um pedido de impeachment ao senado sob pretexto que o Presidente tinha se saído do país, rumo às águas internacionais, sem comunicar e pedir autorização ao parlamento. Com esse fundamento, o pedido de impeachment foi votado e aprovado.

Café filho, que era o presidente oficial do país, retomou ao poder e quis manter o golpe; ele se aliou aos golpistas e quis impedir a posse de Juscelino. Porém, mais uma vez o Marechal Lott interviu e garantiu a posse de JK.

Na conta final do processo, o Brasil teve três presidentes diferentes em uma única semana! Linda democracia brasileira!

Os militares tentaram outro golpe em 1962; desta vez foram impedidos por Brizola e as tropas legalistas do Rio Grande do Sul.

Em 1964, o golpe iniciado em 1955 foi finalmente concluído. Os militares impediram o governo de João Goulart e começaram a ditadura militar.

Foram vários outros golpes dentro do golpe, incluindo o de 1968 que criou o AI-5. Esse golpe dentro do golpe serviu para acabar com a mentira dos militares, que afirmavam que o golpe deles duraria apenas até a próxima eleição e a retomada da normalidade.

Até o jornalista Carlos Lacerda, fiel golpista instalado na imprensa, que sempre apoiou e estimulou golpes, acabou preso pelos militares. Novamente, golpe militar e traição aos antigos aliados.

QUE A OPOSIÇÃO APRENDA COM A HISTÓRIA

Golpes só são impedidos na véspera. Um golpe nunca é impedido depois de instalado.

D. Pedro II sabia da insatisfação de militares com a diminuição de soldos e privilégios após a Guerra do Paraguai. Deodoro já havia tomado à frente de manifestos políticos. Mas o imperador e seus comandados relutaram em aplicar punições severas.

Marechal Lott, quando viu o golpe em construção agiu para impedir, mesmo correndo o risco de criar instabilidade no país. Vejam, ele atirou em um navio que carregava o presidente golpista! Exagero ou não, ele impediu o golpe em 1955.

Em 1964, os “democratas” se mantiveram divididos, na crença de que o “problema era dos outros”.

Em 1966, quando o golpe militar já estava instalado, Carlos Lacerda, Juscelino e João Goulart anunciaram uma frente ampla em favor da democracia e do retorno à normalidade.

Em 1968 os militares afirmaram que a frente era ilegal. Os envolvidos na frente pela legalidade e democracia foram presos ou exilados. Os militares retiraram os direitos políticos de todos os envolvidos.

Lacerda foi preso, Juscelino foi exilado e depois morreu em um acidente – um caminhão bateu na traseira do carro onde JK estava e o empurrou de uma ribanceira – Brizola saiu do país, Prestes saiu do país, Goulart saiu do país e morreu no exílio, em circunstâncias que até hoje levantam dúvidas.

A história não serve como instrumento de adivinhação do futuro. Mas ela nos ajuda a criar cenários possíveis e prováveis. Se existe a ideia de uma frente ampla, cabe avaliar se esta não deve ser acelerada. Atos conjuntos, palanques conjuntos. Juntos pela democracia. Mas juntos agora, depois é tarde.

Um impeachment é improvável e ainda poderia transformar o presidente em mártir dos injustiçados. Mas mobilizar a opinião pública e isolar o radicalismo bolsonarista é, neste momento, viável. Este é o melhor momento para esta frente; é o momento de maior fragilidade do presidente e precisa ser aproveitado. Depois, talvez, seja tarde demais.

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