EUA apoiam quebra das patentes de vacinas contra o Covid. Agora o Brasil é um dos poucos contra

Vários erros foram cometidos pelo governo Bolsonaro na condução da pandemia. Vários foram erros graves, mas alguns são inexplicáveis. Um dos mais incompreensíveis e prejudiciais ao Brasil foi a resistência do Brasil em defender a quebra de patentes das vacinas.

Quebrar patentes significa que outras empresas poderiam produzir as vacinas utilizando o conhecimento criado pelas farmacêuticas donas da tecnologia, mesmo sem autorização desses laboratórios.

Vários países do mundo, principalmente os mais pobres e mais populosos, que precisam comprar muitas vacinas, defendem a queda de patentes. Os EUA foi contra, porque boa parte dos laboratórios proprietários de tecnologia tem sede naquele país.

O Brasil sempre liderou a defesa de quebra de patentes de medicamentos essenciais, mas no caso das vacinas contra Covid o país foi contra. A razão: agradar ao ex-presidente dos EUA, Donald Trump, ídolo e suposto aliado de Jair Bolsonaro.

Veja a gravidade da situação: para atender a um interesse econômico dos EUA, o Brasil escolheu se prejudicar. O Brasil preferiu pagar mais caro e ter uma produção limitada de vacina. Tudo para agradar aos EUA.

Hoje, com um novo presidente, os EUA disseram que são a favor da quebra de patentes, por várias razões. A justificativa pública é que a falta de vacinas contra o covid está colocando em risco a economia global e a própria sobrevivência humana. É fato também que os EUA só tomaram essa decisão após terem praticamente concluído a vacinação naquele país. Mas, antes tarde do que nunca.

O fato é que agora o Brasil está praticamente isolado da defesa das patentes para esses medicamentos.

Na nota em que informou a mudança de posição, o governo dos EUA disse que “essa é uma crise sanitária global, e as circunstâncias extraordinárias da pandemia de covid-19 pedem por ações extraordinárias. O governo federal acredita fortemente nas proteções da propriedade intelectual, mas para que a pandemia possa ter fim, defende o levantamento dessas proteções para vacinas anticovid”, diz a nota.

Medidas como quebra de patente realmente provocam um lucro menor para as empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento e, por isso, deve ser evitado. Mas em situações extremas como as atuais não se pode abrir mão da vida para garantir o maior lucro das farmacêuticas

Para se ter uma ideia, segundo levantamento da Agência Lupa/UOL, cada dose de Coronavac custava em janeiro R$58,20; a AstraZeneca custava R$17,28.

Isso significa que o Brasil já pode ter pago, se não houve mudança de preços, mais R$2 billhões pelas 40 milhões de doses de Coronavac/Butantan. Outros R$345 milhões já devem ter sido pagos pelas 20 milhões de doses da AstraZeneca/Fiocruz.

Segundo a rede BBC, a representante dos EUA em assuntos de comércio exterior, Katherine Tai, afirmou nesta quarta-feira que tal processo levará tempo, considerando “a natureza consensual” da OMC e “a complexidade dos assuntos envolvidos”. Entretanto, Tai garantiu que o país não perderá tempo.

“O governo federal pretende levar o máximo possível de vacinas seguras e eficazes, para o máximo de pessoas”, diz a conclusão da nota, acrescentando que os EUA buscarão trabalhar com o setor privado e outros colaboradores para ajudar na produção e distribuição de imunizantes em outros países.

Mesmo que a patente fosse quebrada, levaria tempo para que outras empresas compreendessem o processo de produção, adquirissem os equipamentos específicos e conseguissem a aprovação de suas vacinas “genéricas” na Anvisa.

Tempo suficiente, talvez, para que as vacinas de tecnologia brasileira que estão em fase avançada de desenvolvimento, como a produzida na UFMG fiquem prontas.

Mas, se esta medida tivesse sido adotada em outubro, quando foi proposta por Índia e África do Sul, quando nenhuma vacina ainda estava pronta, talvez hoje o Brasil estivesse pagando um preço mais baixo, tanto em dinheiro quanto em vidas.

Eleição americana: o bipartidarismo e as divisões internas deles, mudam pouca coisa para o resto do mundo

O bipartidarismo americano é uma forma criada pelos políticos e pela elite dos Estados Unidos para organizar a divisão de poder entre eles. São raposas disputando o controle do galinheiro. Algumas raposas podem até ser mais gentis do que as outras, umas até podem consumir menos ovos do que outras, mas no fundo todas querem a mesma coisa: controlar as galinhas, que, nesse caso, é o resto do mundo.

Se a China ameaçar, os Estados Unidos vão reagir, seja um governo democrata ou republicano. Se o Brasil ameaçar os interesses econômicos norte americanos, os Estados Unidos também vão reagir, independentemente do presidente eleito.

Ingênuos são aqueles que acham que o governo de uma potência como os Estados Unidos pode, mesmo que queira, facilitar a vida pros outros e dificultar para o seu próprio povo.

Democratas e Republicanos podem não ser iguais, mas também não são tão diferentes assim. Podem até mudar o modus operandi, mas não mudam o objetivo principal, que é favorecer os Estados Unidos dentro da economia mundial e ganhar dinheiro para empresas norte americanas.

Existem vários livros falando sobre a semelhança e a aliança sincera entre os dois grandes partidos dos Estados Unidos. Lá eles já sabem há muitos anos que a hegemonia é um patamar inalcançável. A hegemonia, caso aconteça, é o princípio do fim do sistema.

Karl Marx, o teórico comunista mais detestado por capitalistas e conservadores ingênuos, descreveu em sua obra um conceito interessante chamado “dialética”. Em termos práticos e rasteiros poderíamos resumir o conceito em uma frase: “o novo sempre vem”. O mundo não para, ele muda e vai mudar sempre. Toda hegemonia será destruída, todo império caiu e cairá. Nas ideias de Marx, será assim até a chegada ao comunismo.

Os capitalistas inteligentes e conservadores pragmáticos, que se reproduzem com vigor nos Estados Unidos, leram Marx e entenderam o seguinte: para tudo continuar como sempre foi, é preciso mudar sempre.

E é assim que eles têm feito: numa eleição os democratas vencem, na outra os republicanos. Com essa estratégia, há mais de duzentos anos tudo continua igual; muda apenas o nome e o partido no governo. Muda sempre, mas são sempre os mesmos.

Existem vários livros falando sobre as “semelhanças” e “diferenças” entre os dois maiores partidos americanos. Um deles, chamado “Corrupção à Americana”, da jornalista norte americana Amy Goodman, é um livro interessante. Ele trás dados sobre as guerras promovidas pelo governo dos Estados Unidos e informa quanto as empresas vinculadas à democratas ou republicanos lucraram com essas guerras.

São cifras que fazem os valores da operação Lava Jato parecerem troco de padaria. O mais interessante para nós é que essas empresas apoiam tanto democratas quanto republicanos e lucram tanto com democratas quanto com republicanos. E mais, o lobby nos Estados Unidos não é proibido, a contribuição financeira de empresas para campanhas também é permitida e, assim, todas as relações, por mais promíscuas que pareçam, são legais e permitidas por lei.

Só para se ter uma ideia de como funciona a relação entre poder político e econômico, vamos citar duas empresas elencadas no livro de Goodman e que tiveram atuação no Afeganistão e na última guerra do Iraque.

Primeiro, a Fluor Corporation, empresa de engenharia ligada a ex-diretores da CIA em governos republicanos e a um ex-congressista democrata. A empresa doou 3,6 milhões de dólares para campanhas, sendo 57% para Republicanos e 43% para democratas. Só os ganhos da empresa no Afeganistão chegaram a 500 milhões de dólares. Algumas vezes sem nenhuma comprovação de trabalho realizado.

Outro exemplo extraído do livro Amy Goodman é a empresa Bechtel Group, também do setor de engenharia e construção. A empresa é diretamente ligada aos ex-presidentes Bush e também tem participação de democratas em seu conselho diretor. Eles doaram 3 milhões de dólares para campanhas. 59% dos recursos foram para republicanos e 41% para democratas. Seus contratos no Iraque e Afeganistão alcançaram a bagatela de 1 bilhão de dólares, também sem controle efetivo dos serviços prestados.

São apenas dois exemplos para mostrar que, no fundo, o que interessa aos estadunidenses são os Estados Unidos. O resto é estratégia de relações internacionais. E, cá entre nós, eles estão certos; pelo menos do ponto de vista político-econômico. Nós deveríamos ser pelo menos um pouco mais assim.

Acreditar que uma vitória de Joe Biden favoreceria ao Brasil por prejudicar Bolsonaro, ou se iludir achando que Trump algum dia fará alguma coisa real para favorecer os conservadores brasileiros é pura ilusão. Eles, democratas ou republicanos, só ajudarão alguém no Brasil se isso favorecer os interesses deles.

Durante alguns anos o Brasil agiu em relação aos Estados Unidos de forma bem pragmática e se afastou politicamente. É preciso lembrar que nos setores em que o Brasil é forte – como agricultura e indústria pesada – o maior concorrente do Brasil é os Estados Unidos. Os dois países são os maiores produtores de commodities do mundo. Por isso, algo que favoreça aos Estados Unidos nesses setores, prejudica o Brasil. Durante alguns anos essa conclusão parecia óbvia.

Mas o atual governo entrou na onda do saudosismo da guerra fria e enxerga nos Estados Unidos um “Big Brother” que pode nos proteger dos fantasmas neuróticos que vivem na sombra da cortina de ferro.

Essa obsessão saudosista do governo acabou arrastando os eleitores de oposição pro mesmo buraco. A ilusão de que existe algum partido nos Estados Unidos que vai pensar mais no interesse do mundo do que no interesse deles. Isso não existe.

Quem criou a Guerra Fria foram governos democratas; quem criou o Embargo contra Cuba foram os democratas; quem começou a Guerra no Vietnã foram os democratas. Não existe santidade em política. Não existe razão histórica para acreditar que os democratas serão mais cordiais com as causas da “esquerda mundial”.

Os democratas nascem como um divisão escravocrata dentro do partido republicano que, na época, era a favor da ideia de República nos moldes clássicos e tinha Abraham Lincoln como representante inspirador. Sua mudança de rumo para a centro-esquerda vem de forma pragmática após uma série de derrotas eleitorais em meados do século XX e a percepção de conveniência na adoção de algumas bandeiras relativas ao direito de minorias.

No fim, como diz a banda de rock Engenheiros do Hawaí: somos todos iguais, mas uns são mais iguais que os outros. E para os Estados Unidos vale a máxima de Bezerra da Silva, “farinha pouca, meu pirão primeiro”.