A mais nova promessa de ampliação do metrô deve incluir expansão da linha1, que prevê estações em Contagem

A expansão do metrô na região metropolitana de Belo Horizonte é novela. Mas não é qualquer novela, é daquelas novelas ruins, lentas, que nada acontece e o expectador muda de canal antes de saber o final. São mais de 30 anos enrolando a população da região. Nesta quarta-feira o governo Zema anunciou mais um capítulo dessa novela.

O governo estadual confirmou acordo com a união para ampliar o metrô da capital mineira. Um investimento de R$3,2 bilhões que está previsto para começar em 2022.

Não é a primeira promessa e, coincidentemente, não é a primeira que acontece às vésperas de uma eleição.

Em 2020, o Coluna fez uma reportagem com o levantamento de valores e projetos apresentados desde a última expansão do metrô, realizada em 2002.

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Nem Zema acredita muito que metrô aconteça e apela ao “se Deus quiser”

“Depois de algumas décadas, se Deus quiser, esse projeto será destravado e se transformará em realidade. É lógico que é uma obra que vai levar algum tempo para ser executada, mas pelo menos será iniciada. Vai criar empregos e dinamizar a nossa economia”, afirmou Zema.

O governador mostrou satisfação com a notícia. Mas manteve-se reticente na comemoração.

O anúncio foi feito durante reunião, em Brasília, realizada pelo governador com os ministros da Infraestrutura, Tarcísio Gomes, e do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho.

Esses ministros são os mesmos que há aproximadamente um ano atrás comemoraram a expansão do metrô ao lado de Carlos Viana. Dessa vez o senador não apareceu nem na foto oficial do anúncio. Coisas da política.

Ano passado, o governo federal fez o Senador Carlos Viana passar vergonha diante de seus eleitores. O senador teve a promessa de que os recursos necessários à expansão seriam enfim liberados. Dias depois o presidente Bolsonaro negou e o Ministério da Economia informou que não seria possível incluir o projeto no orçamento do governo.

O Senador reclamou, disse que haveria outras formas, utilizando recursos de multas e acordos com as concessionárias da rede ferroviária. Mas nada aconteceu.

Antes de Zema e Carlos Viana, Dilma já havia prometido o metrô pra BH

Antes de Zema e Carlos Viana, a ex-presidente Dilma também já havia feito a sua promessa de expansão do metrô em BH. O anúncio de Dilma foi feito em 2011 e os recursos liberados no orçamento feito em 2013. Curiosamente, um ano antes das eleições, como ocorre hoje. Naquela época os recursos não foram utilizados e retornaram para os cofre da união.

O projeto que todos utilizam como base foi realizado em 2005, ano que antecedeu a eleição presidencial de 2006. De acordo com esse projeto, serão gastos aproximadamente aproximadamente R$1,2 Bilhão para conclusão da linha2, a linha do metrô até o Barreiro, e outros R$800 milhões para ampliação da linha1.

Foi com base nesse projeto que o ex-prefeito de Belo Horizonte fez buracos na Praça7, centro de BH, para verificar a viabilidade do metrô subterrâneo naquela região. Coincidentemente, esses buracos foram feitos em 2013, ano que antecedeu as eleições de 2014, na qual o prefeito pretendia disputar o cargo de governador. Após os buracos, nada mais foi feito.

Governo promete obras para 2022, não custa lembrar, ano de eleição

“Hoje é um dia histórico para Minas Gerais. Em reunião com o governador Romeu Zema, o governo do presidente Jair Bolsonaro chegou ao acordo que possibilitará a ampliação da linha 1 e construção da linha 2 do metrô de BH. Os investimentos fazem parte do projeto de desestatização da CBTU-MG”, afirmou o ministro Rogério Marinho.

Em 1980 foi apresentado o projeto do atual metrô de BH. Ele viria a substituir os trens de subúrbio, que rodavam na região de forma precária. Detalhe, a linha dos trens de subúrbio chegou a ter 17 estações e 21 paradas, com linhas que interligavam várias cidades, incluindo Betim, Raposos e Rio Acima, entre outras.

Em 1986 o metrô entrou em funcionamento. Naquela época já havia a promessa de expansão do metrô até o Novo Eldorado e a promessa de criação da linha2, que ligaria o Barreiro ao Centro de Belo Horizonte e, de quebra, atenderia a Vila São Paulo e o Industrial, em Contagem. De lá para cá, promessas, só promessas.

Veja o histórico completo do caso:

COLUNA1: https://coluna1.com.br/2020/09/02/governo-ja-investiu-r26-milhoes-na-expansao-do-metro-mas-ate-agora-obras-sao-apenas-promessas/

Pesquisa mostra que “Terceira Via” só existirá se for construída pela pista da direita, sobre votos de Bolsonaro

O DataFolha divulgou nesta semana uma pesquisa que fez muita gente dizer que a possibilidade de uma “Terceira Via” acabou. Não é verdade.

A única coisa que a pesquisa mostrou é que o PT, pelo menos em nível nacional, continua dono dos votos da esquerda. Mas mostra também que Bolsonaro está diminuindo de tamanho e pode dar lugar a um terceiro candidato viável.

Lula se aproxima dos 41% das intenções de voto. Mesmo sendo um patamar alto, ainda é menor do que o PT chegou nas eleições de 2006 (com 48%), em 2010 (com 46%) e em 2014 (com 41%). O fato de Lula estar com esse percentual de votos não é, propriamente, nenhuma surpresa. É, de fato, algo previsível.

Tão previsível que Ciro Gomes já tem, há algum tempo, mirado suas críticas ao PT. A chance de Ciro crescer é se mostrar como antipetista. Disputar votos na esquerda contra Lula é perda de tempo para Ciro. Ele tem que disputar os votos dos contrários ao PT, por isso as críticas ao PT. Ele está certo, não há nada de desleal nisso; é apenas estratégia.

Os candidatos da direita raiz, por assim dizer, somam 18%, mas são votos espalhados em 5 candidatos (Sérgio Moro, João Doria, Luciano Huck, Mandetta e Amoedo). Além desses 18% ainda somam-se mais 6% de Ciro Gomes.

Isso coloca Lula com 41%, Bolsonaro com 23% e os candidatos que não concordam nem com Lula nem com Bolsonaro somam 24%. O problema para a terceira via não é Lula, é o diálogo entre eles e o problema de Lula é que ele precisa da terceira via para vencer.

Mesmo nas eleições em que o PT teve resultados excepcionais, ele nunca teve votos suficientes para vencer em primeiro turno. É preciso uma terceira via democrática (inclusive para propiciar a eleição de um parlamento menos bolsonarista).

A direita acusa os líderes da esquerda de não conversarem nem entre eles mesmos. Mas quando a direita é colocada na situação de dialogar entre si, enfrenta as mesmas dificuldades. Enquanto ninguém abrir mão de ser o salvador da pátria, a terceira via da direita continuará frágil.

MAIS UMA ELEIÇÃO ENTRE OS FAVORÁVEIS E OS CONTRÁRIOS AO PT

A grande questão que deve estar tirando o sono da equipe de marketing do Bolsonaro é que, sendo dono de 23% e com Lula na dianteira, beirando uma vitória no primeiro turno, Bolsonaro perde o protagonismo do discurso.

Com a situação do jeito que está, a motivação de votos será a mesma de 2018: será uma escolha entre ser contra ou a favor do PT.

Isso significa que é o PT quem vai escolher o candidato que irá disputar o segundo turno. Calma, explicamos: o candidato que irá assumir o segundo lugar será aquele que o PT escolher como antagonista no debate, sobretudo nas redes sociais.

Cabe ao PT e aos militantes petistas nas redes sociais compreenderem que quem escolhe adversário é o próprio PT.

Nesse momento, o objetivo do PT e de todos os políticos democráticos do país tem que ser eliminar a sustentação política de Bolsonaro. Por isso, se o PT quer acabar com o bolsonarismo precisa parar de falar de Bolsonaro.

Os petistas podem não ter percebido isso ainda, mas Bolsonaro já percebeu.

Sempre que alguma coisa sai dos planos – seja a descoberta de Queiroz, seja a mansão de R$6 milhões do filho do presidente ou uma CPI soprando no cangote – sempre que algo sai do controle o presidente dá um jeito de fazer uma manifestação maluca sobre ditadura, homossexualismo ou racismo.

A intenção de Bolsonaro não é atiçar sua base. A intenção de Bolsonaro é fazer a base petista se movimentar. Sempre que um petista vai para as redes sociais chamar Bolsonaro de maluco, torna o presidente mais forte no posto de “antipetista mor”.

É isso que ele quer. Para vencer eleição Bolsonaro precisa encarnar o antipetismo. Os petistas tem que tomar cuidado para não fazer isso, de novo, em 2022.

Não. Não estamos dizendo que Bolsonaro é cria do PT. Bolsonaro é fruto de uma intensa campanha de desvalorização da atividade política e ridicularização do bom senso, que inclui programas de TV como Pânico e CQC e chega até aos corredores do Ministério Público. Mas, em termos eleitorais, a incapacidade dos militantes da esquerda em resistir às provocações ajudou um pouco a transformar Bolsonaro em mito da idiotice.

Pelo lado da direita, o objetivo também tem que ser eliminar a ameaça autoritária de Bolsonaro. Para isso, eles também têm que mirar o PT. A direita democrática precisa dar o próximo passo e fazer a síntese das propostas de esquerda e de bolsonaristas.

O problema é que a direita tem perdido oportunidades uma atrás da outra.

Por exemplo, no último mês houve um massacre em Santa Catarina e um massacre policial no Rio de Janeiro. A esquerda naturalmente mobilizou-se contra o absurdo que foi a chacina policial no Rio de Janeiro. O Bolsonarismo partiu logo para a ofensiva dizendo que “era tudo bandido”. Os dois lados deram pouca ênfase, mostrando relativa insensibilidade, à chacina de Santa Catarina.

Era o momento da direita um pouco mais consciente apresentar um meio termo. Na questão do Rio de Janeiro era a hora de um líder da direita progressista intervir e tomar a frente do discurso, exigindo rigor contra os bandidos, mas defendendo a existência da polícia. A maior parte da população pensa é desta forma.

Os líderes da direita poderiam fazer uma crítica aos abusos policiais e defender uma estratégia policial de inteligência. Mas não fizeram. Se calaram e acabaram sendo indiferentes. Quem quer apresentar candidato à presidente não pode ser indiferente num caso dessa proporção.

A maior parte da população detesta bandido e acha a polícia importante; mas também não quer policial por aí matando inocentes. Esse viés deveria ser ocupado pela direita. Mas não foi.

Os líderes da direita poderiam ter ido, por exemplo, até Santa Catarina, um dos Estados brasileiros onde o bolsonarismo é mais forte, para mostrar compaixão com as vítimas – coisa que Bolsonaro não fez, diga-se de passagem.

Eles poderiam fazer um ato conjunto na cidade onde houve o massacre, com as presenças das principais lideranças da direita. Mas não fizeram. Abriram mão de serem protagonistas.

Lula estava em Brasília chamando apoios para seu projeto político; Bolsonaro estava criando discursos malucos contra a China; e os líderes da direita, onde estavam? Assistindo a ação dos outros e tomando espumantes na Avenida Paulista?

A terceira via pode existir? Pode. Existe voto disponível para isso. Mas quem quer ser protagonista precisa agir como protagonista. Petistas e Bolsonaristas têm feito isso e por isso têm suas posições garantidas e um mínimo de voto já estabelecido.

Mas e a direita democrática? Vai ficar apenas assistindo? Surge inclusive uma dúvida razoável: a terceira via é possível dentro da direita democrática. Mas será que de fato existe direita democrática no Brasil? Se não existir, é uma boa hora para criarem.

EUA apoiam quebra das patentes de vacinas contra o Covid. Agora o Brasil é um dos poucos contra

Vários erros foram cometidos pelo governo Bolsonaro na condução da pandemia. Vários foram erros graves, mas alguns são inexplicáveis. Um dos mais incompreensíveis e prejudiciais ao Brasil foi a resistência do Brasil em defender a quebra de patentes das vacinas.

Quebrar patentes significa que outras empresas poderiam produzir as vacinas utilizando o conhecimento criado pelas farmacêuticas donas da tecnologia, mesmo sem autorização desses laboratórios.

Vários países do mundo, principalmente os mais pobres e mais populosos, que precisam comprar muitas vacinas, defendem a queda de patentes. Os EUA foi contra, porque boa parte dos laboratórios proprietários de tecnologia tem sede naquele país.

O Brasil sempre liderou a defesa de quebra de patentes de medicamentos essenciais, mas no caso das vacinas contra Covid o país foi contra. A razão: agradar ao ex-presidente dos EUA, Donald Trump, ídolo e suposto aliado de Jair Bolsonaro.

Veja a gravidade da situação: para atender a um interesse econômico dos EUA, o Brasil escolheu se prejudicar. O Brasil preferiu pagar mais caro e ter uma produção limitada de vacina. Tudo para agradar aos EUA.

Hoje, com um novo presidente, os EUA disseram que são a favor da quebra de patentes, por várias razões. A justificativa pública é que a falta de vacinas contra o covid está colocando em risco a economia global e a própria sobrevivência humana. É fato também que os EUA só tomaram essa decisão após terem praticamente concluído a vacinação naquele país. Mas, antes tarde do que nunca.

O fato é que agora o Brasil está praticamente isolado da defesa das patentes para esses medicamentos.

Na nota em que informou a mudança de posição, o governo dos EUA disse que “essa é uma crise sanitária global, e as circunstâncias extraordinárias da pandemia de covid-19 pedem por ações extraordinárias. O governo federal acredita fortemente nas proteções da propriedade intelectual, mas para que a pandemia possa ter fim, defende o levantamento dessas proteções para vacinas anticovid”, diz a nota.

Medidas como quebra de patente realmente provocam um lucro menor para as empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento e, por isso, deve ser evitado. Mas em situações extremas como as atuais não se pode abrir mão da vida para garantir o maior lucro das farmacêuticas

Para se ter uma ideia, segundo levantamento da Agência Lupa/UOL, cada dose de Coronavac custava em janeiro R$58,20; a AstraZeneca custava R$17,28.

Isso significa que o Brasil já pode ter pago, se não houve mudança de preços, mais R$2 billhões pelas 40 milhões de doses de Coronavac/Butantan. Outros R$345 milhões já devem ter sido pagos pelas 20 milhões de doses da AstraZeneca/Fiocruz.

Segundo a rede BBC, a representante dos EUA em assuntos de comércio exterior, Katherine Tai, afirmou nesta quarta-feira que tal processo levará tempo, considerando “a natureza consensual” da OMC e “a complexidade dos assuntos envolvidos”. Entretanto, Tai garantiu que o país não perderá tempo.

“O governo federal pretende levar o máximo possível de vacinas seguras e eficazes, para o máximo de pessoas”, diz a conclusão da nota, acrescentando que os EUA buscarão trabalhar com o setor privado e outros colaboradores para ajudar na produção e distribuição de imunizantes em outros países.

Mesmo que a patente fosse quebrada, levaria tempo para que outras empresas compreendessem o processo de produção, adquirissem os equipamentos específicos e conseguissem a aprovação de suas vacinas “genéricas” na Anvisa.

Tempo suficiente, talvez, para que as vacinas de tecnologia brasileira que estão em fase avançada de desenvolvimento, como a produzida na UFMG fiquem prontas.

Mas, se esta medida tivesse sido adotada em outubro, quando foi proposta por Índia e África do Sul, quando nenhuma vacina ainda estava pronta, talvez hoje o Brasil estivesse pagando um preço mais baixo, tanto em dinheiro quanto em vidas.

Bolsonaro mostrou fraqueza, cambaleou em rede nacional e os tubarões já sentiram o cheiro de sangue

Ontem Bolsonaro mostrou fraqueza. Para seu estilo de fazer política, mostrar fraqueza é um perigo. Bolsonaro é cria da nova estratégia política que utiliza a internet como espaço de mobilização da raiva popular para ganhar eleições. Neste modelo, não se vence com propostas, com representação de classes ou grupos; no modelo adotado pelo presidente, as eleições são vencidas tornando-se representante da maior quantidade de raiva possível.

O problema para Bolsonaro é que, nesse modelo, demonstrar medo é fatal. Ele se cercou de grupos raivosos, dispostos a agredir e destruir tudo. Esses grupos respeitam Bolsonaro, pois identificam nele o maior de todos os raivosos, o indestrutível. Não são grupos liderados pelo carisma, são grupos liderados pela força. Para esses grupos, o líder fraco é inaceitável, pois um líder fraco enfraquece o grupo todo.

É como se Bolsonaro começasse a sangrar no meio de um monte de tubarões famintos. Tudo que eles querem é sangue, não importa de quem seja. Animal ferido vira caça. Os grupos que deram base a Bolsonaro farejam sangue a quilômetros. Se Bolsonaro começar a sangrar no meio deles, se tornará o prato principal do almoço de amanhã.

Vejam o que houve com Sérgio Moro. Num dia ele era o herói bolsonarista. Ontem ele foi jantado no STF sem nenhuma reação de Bolsonaro e seus soldados. Basta sangrar e mostrar fraqueza que você vira o alvo da vez.

Maquiavel, pensador político muito útil para os dias atuais, em que a política se torna cada vez mais bruta e indecorosa, diz em seu livro que é melhor ser temido do que amado. Para Maquiavel, o excesso de piedade é uma das falhas que podem levar à derrota do governante. Para Bolsonaro isso também era uma verdade.

O governo Bolsonaro sempre observou esta regra à risca. No dia 24 de março do ano passado a população brasileira tinha aderido a um quase lockdown generalizado. Assustados com as imagens que vinha da Itália e da Espanha, os brasileiro tinha aceitado que era necessário parar a economia durante alguns dias. Mas existia, e ainda existe, muito medo em relação ao desemprego e muita raiva dos comerciantes que se viram obrigados a fechar seus negócios.

Bolsonaro, como cria de seu tempo e resultado de suas estratégias, sabia que não foi eleito pela prudência ou seriedade. Bolsonaro foi eleito pelo medo e pela raiva, logo, não poderia tomar outra atitude senão ficar ao lado da raiva.

Na noite infeliz de 24 de março de 2020, Bolsonaro foi à televisão e fez o mais dispensável discurso desta pandemia. Foi nessa noite triste que ele jogou brasileiros contra brasileiros, politizou a pandemia; politizou remédios como cloroquina e ivermectina, que poderiam ser úteis, mas se tornaram peça de campanha; politizou a cura através da vacina; enfim, politizou a vida e a morte.

Naquele discurso, há um ano atrás, Bolsonaro disse que “algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, como proibição de transporte, fechamento de comércio e confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine”, disse ele. Ali, naquele momento, nossa tragédia nacional se agravou.

Foi nesse discurso também que ele disse que tinha histórico de atleta e que não sentiria nada, que o Covid era uma gripezinha e chamou a cobertura da imprensa de “histeria”.

Foi naquela infeliz noite de 24 de março de 2020 que Bolsonaro mobilizou sua turba e colocou o Brasil no caminho das 300 mil mortes e rumo à liderança da catástrofe mundial. Hoje o Brasil é exemplo, como disse o presidente, exemplo do que não deve ser feito.

Em março do ano passado, as pessoas ouviram o chamado do presidente. No dia seguinte, as medidas restritivas adotadas em cidades de todo o Brasil começaram a cair por terra. Qualquer um que se colocasse a favor da restrição foi chamado de “covarde” ou acusado de defender fechamento “porque está com a vida ganha”. A medicina e a ciência se tornaram políticas.

Ontem, contudo, Bolsonaro mudou o tom. Um ano depois daquela fatídica noite de 24 de março o presidente Bolsonaro aceitou a gravidade da pandemia, enalteceu a vacina como salvação e não falou nem uma vez sequer em curas milagrosas fora da ciência.

Os grupos de apoio a Bolsonaro nas redes sociais estão silenciados. Os produtores de conteúdo dessas redes devem estar readequando os memes, os vídeos e posts. O trabalho deles agora será convencer que Bolsonaro nunca mudou, que ele sempre defendeu a vacina e nunca subestimou a doença. É provável que hoje a noite, posts neste sentido comecem a circular.

A razão para Bolsonaro mudar é simples. A população está com mais medo de morrer de Covid do que de ficar desempregada. Bolsonaro, como eu disse lá atrás, sempre fica do lado do medo. Logo, adotou o discurso da vacinação. Hoe ele tem medo do vírus. Ficar em casa e usar máscaras não é mais coisa de

Maquiavel também explica essa mudança do presidente. Segundo Maquiavel, o governante deve ser dotado da sabedoria do Leão para espantar lobos e da sabedoria da raposa para se proteger de armadilhas. Por isso, diz Maquiavel, “não pode e não deve um príncipe prudente manter a palavra empenhada quando tal observância se voltar contra ele e hajam desaparecido as razões que a motivaram.

Maquiavel completa dizendo que essa habilidade de mudar de opinião é a habilidade da raposa, mas ele diz que “é necessário saber disfarçar bem essa habilidade e ser grande simulador e dissimulador. E são tão simples os homens e tanto obedecem às necessidades presentes que aquele que engana sempre encontrará alguém que se deixe enganar”.

O problema é que Bolsonaro chegou a presidência como líder de um exército. E todo líder de exército tem a obrigação de não trair seus soldados. Bolsonaro traiu. Fez seus apoiadores se exporem a todos os ridículos possíveis. Agora, sem maiores explicações, o presidente simplesmente muda sua opinião.

Sempre haverá aqueles que se deixam enganar. É fato, como disse Maquiavel. Mas há erros que as pessoas não perdoam. Já que a base teórica aqui é Maquiavel, vamos buscar no escritor italiano a razão do risco que corre Bolsonaro. Segundo Maquiavel, o homem perdoa mais facilmente aquele que matou seu pai, do que aquele que tirou seus bens ou sua honra.

Se esta premissa for realidade, os tubarões que já perceberam a fragilidade do presidente podem estar prestes a atacar. Milhares de brasileiros perderam pais e mães como resultado da estratégia pífia do governo para combater a pandemia. Ainda que todos sejam capazes de esquecer isso, vários desses perderam também seus bens e recursos. O brasileiro está órfão e ainda mais pobre.

Mas se não bastassem a orfandade e a pobreza, o discurso de ontem atingiu em cheio a honra de muitos defensores que se sentiram feitos de bobos pelo presidente. Prejudicar pais e mães, fazer perder dinheiro e ter a honra atingida estão na raiz do fracasso de qualquer governante. Por isso Bolsonaro, abra o olho, os tubarões já sentiram o cheiro de sangue.

Bolsonaro escolhe os governadores como adversários. Moinhos de vento para uma legião de Sanchos Pança da internet

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A loucura requer piedade, mas não cumplicidade. Bolsonaro tem agido como um Dom Quixote consciente, que escolhe inimigos a esmo para esconder sua incapacidade e falhas. Os gigantes do momento são os governadores.

O inimigo já foi o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que ele mesmo tinha ajudado a eleger; já foi o presidente da Petrobras, que ele mesmo escolheu e protegeu; e agora são os governadores, grande parte formada de apoiadores do governo federal.

Moinhos de vento! Gritou Sancho Pança para Dom Quixote desvairado em sua loucura. Incontrolável, Quixote ignorou e galopou afirmando que não eram moinhos, que eram gigantes a serem derrotados. Mas no fim, derrubado pela realidade dos fatos, Dom Quixote ainda convence a Sancho Pança de que um mago transformou os gigantes em moinho de vento, bem na hora em que Quixote se preparava para acerta-los com sua espada.

Cego pela admiração que sente por seu mestre, Sancho Pança, iludido, prefere acreditar no velho cavaleiro louco do que acreditar na realidade que ele viu, sentiu e sabia ser verdade. É assim que Bolsonaro tem agido com seus fiéis apoiadores. Uma retórica com o único fim eleitoral, baseada no tripé da loucura, mentira e ilusão. Bolsonaro interpreta Quixote se vangloriando de falsas vitórias para um público de Sanchos Pança.

Existe, contudo, duas diferenças que não podem ser ignoradas! A primeira diferença é que Bolsonaro e seus marqueteiros políticos não são loucos! São pragmáticos! Sabem bem como se beneficiar de uma mentira repetida várias e várias vezes! Não é loucura! É projeto! Projeto de poder pessoal, nada mais.

O governo Bolsonaro vendeu até a alma para eleger o atual presidente da Câmara, cuja primeira medida própria foi a PEC da Imunidade.

Nas redes sociais os Sancho Pança de Bolsonaro dispararam veneno e ódio contra os deputados! Mas, guiados pelos robôs do Bolsonarismo, esqueceram de dizer que a tal PEC tem como função original proteger o filho do presidente! Esquecem de dizer que quem colocou esses políticos no poder foi Bolsonaro! Esquecem, por conveniência, que o Parlamento brasileiro é formado por Bolsonaristas em sua maioria e que o presidente vota apenas o que quiser!

Dizem que ele não conseguia aprovar projetos porque o Rodrigo Maia não deixava. Rodrigo Maia foi retirado do cargo e nenhum projeto do governo apareceu! Nenhum!

O governo Bolsonaro não tem projeto! Tem interesses! Não sabe o que fazer e usa mentiras para disfarçar sua incapacidade! Nada foi apresentado ao parlamento desde que Rodrigo Maia saiu do poder; ele não impedia nenhuma votação! Simplesmente não há nenhuma proposta para votar e é essa verdade incômoda que o bolsonarismo no poder tenta impedir que seja vista pelos bolsonaristas nas redes sociais!

A segunda diferença fundamental é que mesmo louco, Dom Quixote era leal. Bolsonaro trai a todos aqueles que estão próximos dele! Todo ato de Bolsonaro no poder tem como único objetivo preservar Bolsonaro no poder!

Quando Bebianno foi expulso do governo, Bolsonaro pediu seu sangue; quando Moro foi expulso do governo, Bolsonaro pediu seu sangue; quando o presidente da Petrobras foi expulso do governo, Bolsonaro jogou seu cadáver político aos leões da internet, sem a menor piedade!

A gasolina subiu. Ele colocou a culpa no presidente da Petrobras. Trocou o presidente. A gasolina subiu de novo! Ilusões! Moinhos de vento para mobilizar seus escudeiros na internet! Nada mais! Apenas mais um apoiador crucificado para agradar a plebe ruidosa de fariseus!

Fará a mesma coisa com Paulo Guedes, podem escrever.

Quando não for mais possível fingir que é liberal e Paulo Guedes se ver obrigado a abandonar o barco do governo, Bolsonaro colocará nas costas do atual “pilar do governo” toda a culpa pelo fracasso econômico do governo! Vai jogar Guedes ao mármore do inferno das redes sociais, sem pensar duas vezes!

Paulo Guedes sabe, quando o povo faminto vir bater na porta do governo e não houver mais muros para se esconder, é Paulo Guedes que vai servir de petisco pro povo! Uma distração que será queimada em praça pública enquanto Bolsonaro arruma outra ilusão para manter os Sancho Pança da internet ao seu lado!

Talvez por isso o ministro resista em sair do barco que, ele sabe, já começou a afundar! É preciso, como dizem, arrumar uma saída honrosa. Caso contrário, farão com ele o que foi feito com Mandetta, Moro e outros heróis bolsonaristas.

É traidor sim! É traição do governo com aqueles que depositaram votos e confiança nele! Traição com os governadores que empenharam confiança nas mãos do Capitão! Deslealdade com aqueles governadores que ainda fingem não ver que o governo já se dispôs a transformá-los em boi de piranha para acalmar a sede de sangue das hordas bolsonaristas!

Aonde o governador de Minas, Romeu Zema, acredita que conseguirá chegar? Ele finge não perceber que Bolsonaro já colocou sua cabeça à prêmio faz tempo!

Ou será coincidência que, numa semana os caminhoneiros estavam em Brasília ameaçando o ministro com uma greve, fazem uma reunião com o Presidente Bolsonaro e na semana seguinte vêm fazer manifestação na porta do Zema? Eles não voltaram à porta do palácio presidencial. Não! Eles vieram explodir seu rancor e frustações na porta do Zema! Diga-se de passagem com a conivência dos patrões donos das transportadoras.

Contudo, é preciso lembrar que moinhos de vento reagem! Machucam! Bolsonaro foi colocar a culpa nas costas dos governadores e os governadores rapidamente relembraram que a responsabilidade de criar União é do governo federal! Bolsonaro veio dizer que mandou muito dinheiro para Estados, e os governadores rapidamente mostraram a conta que é mentira! Eles deram mais ao governo federal do que receberam de volta!

Os governadores disseram o óbvio, se está morrendo tanta gente no Brasil pelo Covid-19, se a economia no país não consegue recuperar uma estabilidade, é porque o governo Bolsonaro não tomou as rédeas da situação! Nunca houve uma ação conjunta e planejada contra a pandemia no Brasil! Cada Estado, cada cidade e quase cada bairro agiu do jeito que quis! Quem deveria determinar a forma de ação é a União, o governo federal. Mas Bolsonaro insiste em não fazer nada!

Ele tentou colocar a culpa na justiça, mas a justiça rapidamente disse que não! A única coisa que a justiça fez nesse caso foi dizer que municípios e Estados tinham liberdade para fazer alguma coisa… que não eram obrigados a ficar de braços cruzados vendo a mortandade do povo brasileiro sem fazer nada, tal como Bolsonaro queria.

Aí Bolsonaro, em seus discursos descolados da realidade, diz aos Sanchos Pança: os governadores fizeram tanta coisa e ainda assim morreu muita gente, isso mostra que iria morrer gente de qualquer jeito! Porém, a conclusão óbvia é outra: morreu tanta gente, mesmo fazendo as coisas sem apoio do governo federal! Imagina se não fizessem nada? Se tivessem feito nada, como Bolsonaro queria, ao invés de 250 mil mortos, hoje seriam milhões!

Bolsonaro age, já derrubado no chão pela realidade, quase desistindo pela pressão dos fatos, num ato de discurso e desespero, Bolsonaro agoniza apenas para convencer aos Sancho Pança da internet. Ele repete: não estava errado, foi um mago que mudou a realidade quando ele estava prestes a vencer a luta! Tal como Quixote, tenta convencer seu escudeiro que os moinhos de vento eram gigantes!

Mas que luta? Ele não está lutando contra ninguém! Está iludindo, alucinadamente, buscando argumentos para manter a mentira viva, nem que seja apenas no coração de Sancho Pança.

Aliás, a quem interessar, o livro Dom Quixote está disponível em Domínio Público e pode ser lido CLICANDO AQUI. A cena da luta contra os moinhos de vento está descrita na página 53. Boa leitura.

Apesar da troca de diretoria e promessas de Bolsonaro, Petrobras aumenta preços novamente nesta semana, mais R$0,12

A Petrobras anunciou hoje (1º) um novo aumento nos preços da gasolina, do óleo diesel e do gás de botijão vendidos nas refinarias. A partir de amanhã (2), a gasolina ficará 4,8% mais cara, ou seja, R$ 0,12 por litro. Com isso, o combustível será vendido às distribuidoras por R$ 2,60 por litro.

O óleo diesel terá um aumento de 5%: R$ 0,13 por litro. Com o reajuste, o preço para as distribuidoras passará a ser de R$ 2,71 por litro a partir de amanhã.

Já o gás liquefeito de petróleo (GLP), conhecido como gás de botijão ou gás de cozinha, ficará 5,2% mais caro também a partir de amanhã. O preço para as distribuidoras será de R$ 3,05 por quilo (R$ 0,15 mais caro), ou seja R$ 36,69 por 13 kg (ou R$ 1,90 mais caro).

Segundo a Petrobras, seus preços são baseados no valor do produto no mercado internacional e na taxa de câmbio.

“Importante ressaltar também que os valores praticados nas refinarias pela Petrobras são diferentes dos percebidos pelo consumidor final no varejo. Até chegar ao consumidor são acrescidos tributos federais e estaduais, custos para aquisição e mistura obrigatória de biocombustíveis pelas distribuidoras, no caso da gasolina e do diesel, além dos custos e margens das companhias distribuidoras e dos revendedores de combustíveis”, destaca nota divulgada pela empresa.

informações: AgênciaBrasil

Incoerências na Petrobras mostram que Brasil não sabe o que quer e coloca interesses de investidores acima dos interesses do país

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As ações do governo federal em relação aos preços dos combustíveis mostram que os interesses de investidores estão sendo colocados acima dos interesses nacionais. A lógica estabelecida de regular o valor dos combustíveis de acordo com o preço internacional não é interesse do país. É interesse de investidores, muitos internacionais, que querem ter mais lucro e não estão preocupados com a sobrevivência do país.

A estratégia é simples e declarada: enfraquecer a empresa e disfarçar tudo com um vocabulário técnico e rebuscado. A população não entende o que está acontecendo, só sente baque no bolso. A empresa se enfraquece e fica mais fácil vender o que ainda resta dela sob controle do governo.

A Petrobras tem estrutura para produzir petróleo e gasolina mais baratos do que os vendidos no mercado internacional. Ainda que ela tenha que importar parte da gasolina, o preço final poderia ser realizado de acordo com a média final, com o preço efetivo de produção. Mas, ao contrário, a empresa optou por vender a gasolina pelo preço mais alto.

Age como o vendedor de água no deserto, tem acesso direto a fonte e pode vender no preço que quiser, mas não se importa se alguém vai morrer de sede e escolhe vende pelo preço mais alto que as pessoas conseguem pagar.

Está errado? Bem, se considerarmos apenas a lógica mais perversa e insustentável da “lei da oferta e procura”, está correto. A coisa é minha e eu vendo no preço que eu quiser. Se você quiser, que pague. Mas essa lógica tem premissas erradas.

O petróleo não é da Petrobras, o petróleo é do país. Se o país não permitir que a Petrobras explore ela simplesmente deixa de existir. Da mesma forma a Petrobras não é o resultado do suor do trabalho de alguém que dedicou a sua vida à empresa. Não. A Petrobras só existe porque o povo brasileiro investiu recursos do país para criar a empresa, são os bancos do governo que capitalizam os investimentos da empresa, é o dinheiro dos consumidores brasileiros que compra o combustível na bomba, é o dinheiro dos fundos de investimento estatais brasileiros que compra boa parte das ações da empresa, enfim, sem o recurso dos brasileiros comuns, eu e você que usamos carros e pagamos impostos, a Petrobras simplesmente não existiria.

Não existe monopólio da venda de combustíveis no Brasil desde 2002. Ou seja, qualquer empresa que queira vir vender gasolina no Brasil pode. Mas a Petrobras é muito forte e os concorrentes não tem coragem de vir enfrentar a empresa brasileira.

A atual direção da empresa entende que precisa atrair concorrentes, veremos se este comportamento mudará com a nova direção. Desde que Bolsonaro foi eleito, a direção escolhida para empresa está vendendo refinarias, diminuindo investimento, diminuindo a produção, enfraquecendo a imagem diante dos consumidores com aumentos reiterados e enfraquecendo a posição da empresa. Tudo, segundo eles, para atrair investimentos estrangeiros para o país.

É uma questão sem lógica! Qual empresa com juízo que se esforça para ficar mais fraca? O enfraquecimento da Petrobras só beneficia os investidores. Uma Petrobras fraca será colocada a venda por um preço mais barato. Depois de vendida eles farão de tudo para retomar a posição de monopolista.

A Petrobras só não foi completamente vendida, porque o povo brasileiro tem uma ligação quase sentimental com a empresa. Esse é o único escudo da empresa. A solução encontrada pela direção da empresa é realizar aumentos consecutivos na gasolina. No linguajar comum, tentam “queimar o filme da empresa com a população”. Se a população culpar a empresa pelos males do país, ficará mais fácil vende-la a preço de bananas.

Dizem que a atual política da empresa está dando lucros recordes. Meia verdade. Em 2020 o lucro da empresa foi de 40 bilhões de reais. Em 2010, com Lula ainda no governo, o lucro da empresa foi de 35 bilhões. Há dez anos e sem “paridade de preços”!

Não se pode sequer utilizar o liberalismo como justifica para maltratar a empresa como o governo tem feito. Petrobras sempre esteve entre as 5 empresas mais valiosas da América Latina. Seus resultados sempre foram lucrativos para os investidores. O mercado brasileiro sempre foi bem atendido. A falta de concorrência nunca foi razão de prejuízo para empresa.

Todo monopólio pode ser ruim. É verdade. Mas a diferença entre um monopólio e um oligopólio é quase insignificante nesse caso. E o mais importante, não há monopólio. Portanto, as petroleiras estrangeiras, se querem entrar no Brasil, que entrem pela porta da frente, trazendo investimentos reais.

Só para lembrar e concluir, quando a Petrobras ameaçou entrar no mercado dos EUA com a tal refinaria de Passadena, criaram por aqui uma operação “político-policial” que quase levou a Petrobras a falência. Os únicos anos em que a Petrobras teve prejuízo foram os anos em que a infeliz operação “Lava-Jato” buscou destruir a empresa com a justificativa de prender meia dúzia de diretores que, bandidos que eram, estavam roubando a empresa. Uma operação infeliz que quase matou a vítima para prender o sequestrador.

Governo culpa dólar pelo aumento da gasolina, no mesmo dia em que abre mão do controle sobre política cambial

No dia em que os brasileiros precisam engolir mais um aumento no preço da gasolina, o presidente Jair Bolsonaro colocou culpa no Dólar alto. Enquanto isso, na Câmara dos Deputados, o governo defendia a autonomia do Banco Central, órgão responsável por intervir na política cambial.

O preço do petróleo atingiu seu auge em 2018, com R$80 o barril, mas de lá para cá caiu e vem oscilando entre R$60 e R$40. Porém, apenas em 2020 foram 29% de aumento no valor do dólar. Esse aumento é o que tem pesado no preço da gasolina aos consumidores.

O governo Jair Bolsonaro dolarizou o preço dos combustíveis ao adotar a “paridade internacional”. Na prática significa que o preço dos combustíveis no país passou a variar de acordo com o preço internacional, geralmente estabelecido em dólar. Por isso, uma alta expressiva no dólar provoca também uma alta dos combustíveis.

Em discurso hoje, o presidente Bolsonaro falou sobre o assunto. Ele negou que irá intervir no preço dos combustíveis e disse “o ideal, como tenho conversado com o prezado Roberto Campos Neto (presidente do Banco Central) é o dólar baixar. Mas baixar como? Com o parlamento colaborando na votação de projetos”, disse.

Contudo, a afirmação do presidente considera apenas um aspecto da variação do dólar.

A confiança dos agentes de mercado no governo é um dos fatores de influência no preço do dólar, mas não é o único e nem o principal na determinante do câmbio.

A declaração do presidente desconsidera a existência da “Política Cambial” brasileira.

Essa política cambial são as normas definidas pelo Banco Central para intervir no mercado financeiro e fazer o valor do dólar subir ou descer, de acordo com as necessidades de cada momento.

A “Política Cambial” permite que o governo faça grandes negociações, comprando ou vendendo dólar, para regular seu preço.

Se aprovada a autonomia plena do Banco Central, tal como proposto o governo federal perderia sua capacidade de intervir no câmbio.

De acordo com o próprio Banco Central, “a condução da política cambial afeta diretamente a vida do cidadão, mesmo que não tenha transações com exterior. A taxa de câmbio reflete nos preços dos produtos que o país importa e exporta, influenciando assim os demais preços da economia”.

É uma decisão do Banco Central, mas que até hoje segue as diretrizes estabelecidas pelo Governo Federal.

Em momentos como este, destacam-se os riscos de autonomia plena nas ações do Banco Central. Uma divergência entre banco central e governo coloca em risco a própria execução das políticas de governo.

O Banco Central controla as reservas cambiais do país, passar este controle exclusivamente para o Banco Central significa submeter a condução econômica do país aos interesses do mercado financeiro, que quase nunca coincidem com o interesse dos consumidores, trabalhadores e contribuintes.

Em entrevista ao site Brasil de Fato, o sociólogo e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Jessé Souza, disse que a aprovação do projeto pode aprofundar o maior mecanismo de desvio de verba pública existente hoje no país, que entrega nossas riquezas às instituições financeiras.

 “O governo Bolsonaro é um governo onde essa política do saque financeiro é o ponto principal. Estamos vendo isso acontecer numa velocidade inigualável. O poder da elite, a influência dos banqueiros, se dá de modo velado, na surdina, como estamos vendo com essa votação”, avalia o sociólogo.

Souza considera que a informação sobre os impactos dessa medida não chegam na população. “Não há pluralidade, diálogo. Projetos como esse refletem interesses pessoais, de elite, e só aumentam a desigualdade no país”, disse

DIFERENÇAS ENTRE BRASIL E ARGENTINA

A Argentina também está enfrentando problemas relacionados a inflação. No caso deles os itens que têm pesado mais são os alimentos, de acordo com reportagens do JornalClarin

A justificativa do aumento lá é igual à justificativa do aumento aqui: o aumento do dólar. No caso deles, o governo acusa os produtores de estarem priorizando as exportações e deixando faltar alimentos para o mercado interno.

Contudo, no país vizinho, o presidente Alberto Fernandez convocou representantes dos empresários e ameaçou aumentar taxação e restrições a exportação de produtos essenciais como forma de garantir o abastecimento da população e o controle de preços.

O excesso de intervenção no setor produtivo também pode ser prejudicial. Mas é fundamental ter instrumentos para regular o mercado, se assim for necessário.

Bolsonaro quer tirar dinheiro da educação e atrasar o pagamento de dívidas para criar o “Renda Cidadã”

O presidente quer acabar com o nome “Bolsa Família”, marca dos governos petistas, e colocar alguma outra coisa qualquer no lugar. Para isso, ele e sua equipe econômica não medem esforços e não se cansam de passar vergonha em público.

Há algumas semanas, no dia 15 de setembro, Bolsonaro deu uma bronca pública em sua equipe e proibiu qualquer um de falar em “Renda Brasil” até o fim de seu mandato. O esculacho geral aconteceu depois que o Ministério da Economia “vazou” a informação de que pretendia congelar aposentadorias para pagar a conta do novo programa social.

Seria melhor que Bolsonaro tivesse cumprido sua própria promessa e deixado de lado a ideia de substituir o Bolsa Família. Porém, alguém convenceu o presidente a mudar de ideia e se expor novamente.

Bolsonaro então trocou o nome de “Renda Brasil” para “Renda Cidadã” – pois tinha proibido de falar no nome antigo do programa; vestiu a roupa de pai dos pobres e foi queimar a cara na frente das câmeras. Numa hora dessas deve estar em casa, praguejando contra quem o convenceu a esta nova aventura.

O vexame da vez foi utilizar o Fundeb e adiar o pagamento de precatórios para arrumar dinheiro para o novo programa. Não gastou nem meia hora para a Bolsa de valores despencar, o dólar subir e o TCU, junto com o Ministério Público, levantarem dúvidas sobre a legalidade da proposta.

O problema é que, na prática, o governo Bolsonaro está criando uma dívida e não diz de onde vai tirar o dinheiro; apenas adia uma conta para pagar outra.

A proposta é atrasar o pagamento de dívidas com precatórios e o repasse de recursos do Fundeb para Estados e Municípios e, com o dinheiro que sobrar, criar o novo programa social. Contudo, de acordo com operadores do sistema financeiro, isso significa criar déficit fiscal que uma hora terá que ser pago.

Na Câmara dos Deputados a palavra que ronda os corredores e amedronta defensores de Bolsonaro é “pedalada”.

Do ponto de vista de alguns membros do TCU, a proposta “criativa” do governo nada mais é do que uma “pedalada”, tal qual a utilizada como justificativa para o impeachment da presidente Dilma. Não seria ilegal, mas questionável.

Não seria a primeira acusação de pedalada no governo Bolsonaro, mas dessa vez a coisa é tão “criativa”, que talvez seja necessária intervenção do TCU para salvar a pele do presidente antes que ele e sua equipe levem pra frente esse “equívoco fiscal”.

A situação na bolsa de valores vinha melhorando desde que acharam Queiroz na casa do advogado da família Bolsonaro e uma boa alma sensata convenceu o presidente a ficar mais caladinho e menos briguento.

Porém o esforço foi por terra. No fim do dia, a bolsa tinha caído 2,41% e o dólar batido R$5,63, o maior valor em quatro meses.

Repercussão Política

Um dos primeiros a se pronunciar foi Rodrigo Maia(DEM). Em rede social, o presidente da Câmara afirmou que a “indefinição [sobre o teto de gastos públicos] pode provocar mais uma crise que vai impactar a vida dos brasileiros, adiando ainda mais a recuperação econômica provocada pela pandemia”.

Parlamentares da oposição também se posicionaram e aproveitaram a proposta para criticar o governo. O deputado mineiro Rogério Correia(PT) disse que o governo Lula criou o Bolsa Família e estabeleceu a matrícula em escola como uma das condicionantes para as famílias beneficiadas tinham de ter crianças matriculadas nas escolas. “Ou seja, foi um programa de combate à miséria que ainda estimulava o estudo”, disse. Agora, na opinião do parlamentar, o governo tira da educação e prejudica quem mais precisa, “por revanchismo”.

Nas redes sociais do presidente, o assunto ainda não foi repercutido.

O anúncio do programa foi programado com toda pompa e contou com a presença de líderes de partidos aliados, ministros de várias áreas, assessores especiais e imprensa. Porém, agora a noite, o assunto já não estava entre os destaques da Agência Brasil, site oficial de notícias do governo federal.

foto: Agência Brasil